Tiros em Columbine – por Victor Melo

TIROS EM COLUMBINE
Michel Moore

Moore aponta a câmera e nos atira

A primeira vez que vi Michel Moore foi na ultima cerimônia de premiação do Oscar. Mesmo se tratando de uma instituição (e uma cerimônia) tradicionalmente conservadora, a qualidade inegável de seu filme foi reconhecida com a conquista do prêmio da Melhor Documentário. Ao receber o prêmio, Moore convidou todos os diretores de documentários para subir com ele, fez um belo discurso contra a guerra, esculhambou George Bush e dividiu a pláteia, que ou o aplaudia de pé ou o vaiava intensamente.

Essa mesma postura polêmica e corajosa será encontrada no filme de Moore, que tendo como pano de fundo o massacre de alunos de uma escola norte-americana, busca os motivos e as raízes para explicar o fascínio dos norte-americanos por armas de fogo. Não esperem um documentário à moda de Eduardo Coutinho. Moore dá até espaço para os entrevistados falarem, mas instiga, provoca, assume nitidamente uma posição. A ironia é marca de seu trabalho, mas somente quando vê que é a única forma de lidar com certas imbecilidades que permeiam o imaginário norte-americano. No geral, há uma crueldade e uma radicalidade constante ao abordar assunto tão sério.

Fugindo de explicações sociológicas e psicanalíticas baratas, Moore vai buscar na própria história dos EUA o forjar de uma cultura do medo, implementada por aqueles que controlam a ordem social, desvendando um forte caráter racista por trás de tal formação cultural. O filme trás muitos dados, inclusive comparativos, para demonstrar os equívocos e os absurdos das políticas sociais norte-americanas, plenamente coerentes com sua atuação na política externa, mais destinada aos interesses de uma minoria representante das elites, do que de todo o povo norte-americano. Nesse esforço, destacam-se suas entrevistas provocativas que revelam o assustador que há por trás de posições aparentemente naturais.

Morre aponta sua câmera, mas não atira. Antes prefere, mesmo com uma ironia cortante, assumir uma postura de combate pacífico aos desmandos na condução governamental norte-americana, não deixando pedra sobre pedra. Mais ainda, assume a posição de militante, acreditando na força de sua mensagem imagética, de sua forma de expressão, o que muitas vezes beira o limite do eticamente aceitável. Pode até pecar pelo exagero, mas nunca pela omissão.

Na verdade, o diretor não atira, mas nos atira numa inquietação: o que fazer? Qual possibilidade de mudança? Sem responder tais questões, Moore nos faz acreditar que cada um de nós tem um papel importante na construção de uma nova ordem menos violenta, cuja solução não será alcançada se não com a construção de uma sociedade menos conservadora e mais justa. Com um ritmo ágil, uma montagem genial e fazendo uso de diferentes recursos de imagem (desenhos, imagens filmadas, imagens de arquivos), com um roteiro muito bem alinhavado, o diretor realizou um grande filme. Imperdível.

Por Victor, 11.05.2003


Sabemos que Victor já fez uma crônica deste documentário, mas também gostaríamos de socializar nossas impressões sobre este manifesto de liberdade. Claramente Michel Moore se manifesta contrário a essa loucura que o armamentismo das pessoas comuns (cidadãos??) nos EUA. Algumas questões ficam para nós pensarmos: será que esse armamentismo garante a segurança daqueles que portam os seus rifles, revolveres, etc? Mais ainda, o que representa esse fenômeno quanto pensamos nessa disseminação de um medo generalizado do diferente? Qual a repercussão política disso? Além disso, nos faz pensar como até o medo virou uma mercadoria nos EUA! Sem dúvida, uma bela crítica ao modo de vida americano e suas paranóias. Isso nos faz pensar que seremos antigos daqui a pouco séculos e aí então ouviremos falar de uma grande potência na qual não havia teatros, nem cinemas, nem se andava na rua, mas era um bom lugar. Sem pudor algum, os livros oficiais dirão que a tranquilidade reinava absoluta neste país e que não haveria neniguém a seu lado que não seria de protegê-lo (de quem? De si mesmo?).

Se por um lado o mundo moderno é o mundo da revolução tecnológica, é por outro, um grave desencontro entre essa revolução e uma ordem social que não esse renova. Esse desiquilíbrio determina uma constante expressão do velho no novo: a construção do medo. Como nos lembra Walter Benjamin “a humanidade estará presa a uma antiga angústia mítica enquanto houver lugar para fantasmagoria”.

Todas essas questões estão subjacentes no filme de Moore. Partindo disso, traça um interessante, embora lastimável, da significativa parcela da sociedade americana. Umas primeiras lembranças que me veio foi de uma música da Legião Urbana chamada Canção senhor da Guerra. Em dado momento Renato Russo canta “…pois a guerra gera empregos, aumenta a produção, uma guerra sempre avança a tecnologia, seja guerra santa, quente, morna ou fria, para quê exportar comida se as armas dão lucro na exportação..” Pois bem, tb acho importante não perdermos essa dimensão. Será que em nome lucro, e talvez pela falta de mercado para suas armas, as empresas decidiram se voltar para mercado interno? Afinal, como vimos depois de 11/09 houve um significativo avanço no consumo de armas. Parece um mito de Frankstein surreal: os americanos estão sendo vítimas de suas próprias invenções!!. E isto deve nos preocupar.

Outro ponto tocado por Moore foi a cultura do medo. Que terrível coincidência. Neste momento, onde o RJ é menos conhecido por suas belezas e mais pela “violência”, Moore nos provoca perguntando até que ponto tudo que passa na TV nos habilita a pensarmos que estaríamos em plena guerra civil, como às vezes nos passam alguns jornais. Lembrei-me de um maravilhoso estudo da Prof. Cecília Coimbra chamado Operação Rio: o mito das Classes perigosas (RJ, Oficina do Autor/Intertexto, 2001). Neste texto, Coimbra lembra toda a campanha de 1994 quando o exército “ocupou” as favelas cariocas para garantir a paz dos “cidadãos de bem” ameaçados por estes facínoras perigosos. Coimbra aponta claramente os mecanismos sórdidos utilizados para nos convencer da real necessidade das forças armadas. E por fim, aponta como a cultura do medo é disseminada diariamente pelos jornais. Parece que nestes tempos nada é mais atual.

Aliás neste momento lanço um bela provocação: será que realmente está havendo um aumento da violência ou agora ela está “democratizada” e isso tem nos assustado, já que antes apenas ouvíamos falar?

Neste ponto, não posso deixar de me preocupar com a seriedade do momento histórico que vivemos em nossa cidade e em nosso país. Desde que ficou decretado ser contra o assalto aos trabalhadores (agora institucionalizado pelo governo nos levou a Cinelândia no dia 27 de outubro aniversário do Victor p/ comemorar) é coisa de radical inconseqüente, que não enxerga o óbvio, muita me assusta pensar no que podemos nos tornar. Será que temos alguma responsabilidade com isso tudo? Será que nosso trabalho tem alguma maneira de contribuir p/ que esse processo de desumanização que esse capitalismo nos têm imposto acabe? Mais ainda, para mim a mais importante de todas as perguntas, ESSAS QUESTÕES TÊM NOS INTRIGADO ENQUANTO GRUPO E PRINCIPALMENTE PESSOAS? Será que o sonho de que possamos suplantar isso realmente acabou? Deixaremos nos convencer disso?

Não sei se necessariamente o mundo que espero ver ser construído pelos homens e mulheres deste país, continente e deste mundo será melhor que este em que vivemos. Não sou profeta!! Mas sinceramente, quando ouço vários entrevistados de Moore dizerem com toda naturalidade que se armam para defender sua propriedade, me vem a cabeça se aquela propriedade é realmente do portador daquela arma, ou se foi construídos por muitas outras pessoas. Enfim, que rumos queremos para nossa história? E quem são nossos parceiros e nossos adversários nessa empreitada?

Leandro Konder, em uma de suas maravilhosas crônicas no JB aos sábados me trouxe um lindo poema de Brecht que nos provoca a pensar e principalmente a agir:

“quando os nazistas pegaram os comunistas, eu me calei, porque não sou comunista. Quando prenderam os social-democratas, continuei em silêncio, porque não sou social-democrata. quando começaram a perseguir os católicos, não protestei, uma vez que não sou católico. Quando, afinal, me pegaram, não havia ninguém que pudesse gritar”. E nós, quando gritaremos?

Por Marcelo Melo e Luciane Dias Rodrigues, 19.05.2003