Tesouros da cinemateca – por Victor Melo

TESOUROS DA CINEMATECA
Vários diretores

O cinema celebra a modernidade e nós celebramos o passado presente

Gente, essas coisas não se perdem!!

Estávamos eu, Fabinho e Carlos ansiosamente esperando o início da sessão e comentávamos a felicidade e ansiedade daquele momento. A Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro volta com força total às suas atividades, depois de passar por uma bela reforma (e por outras coisas que não prefiro comentar nesse momento em função do espaço). Para quem não lembra, a cinemateca do MAM é uma das mais importantes instituições cinematográficas do Rio e do país, formando profissionais e estimulando o gosto cinematográfico de gerações inteiras. Quem gosta de cinema e não passou por lá, bom cinéfilo não é (ou então é ruim da cabeça!).

A sala estava completamente lotada e o burburinho era geral quando subiu ao palco o pianista que iria tocar o acompanhamento musical na exibição de filmes raros (Cadu, especialista nessa tarefa). Silêncio foi feito e o que começou a ser exibido a todos encantou.

O primeiro curta, “A dança da Borboleta” (Thomas Edison, 1897), apresentava uma linda mulher a dançar continuamente. Enquanto dançava, sua vestimenta vaporosa ia mudando de cor, em seqüências de movimentos e de cores. Não sei se já existia a dança moderna, mas a dança da bailarina, clássica não era: movimentos livres, longe da técnica clássica, pés descalços, movimentos não convencionais, sensualidade. A modernidade do cinema parecia celebrar uma dança moderna em seus primórdios, com um ritmo compassado e constante.

O segundo curta, “A dança do ventre de Fátima” (Thomas Edison, 1893), originalmente não foi feito para ser exibido em telas, mas nos cineramas, aparelhos individuais que precederam o cinema. Curiosamente, ainda assim, foi exibida uma versão livre e outra censurada! O que na época era de extrema sensualidade, hoje soaria como comédia.

Depois foi exibida a célebre “Saída dos operários da fábrica Lumière” (Louis e Auguste Lumière, 1895), uma das primeiras imagens do cinema exibidas para um público maior. Nascia o cinema, ainda como documentário, pouco como ficção

“Le cake walk” (irmãos Lumière, 1902), logo depois exibida, é um típico número musical, vaudeville típico, engraçadíssimo, que nos lembra que as origens do cinema se confundem com uma perspectiva de teatro filmado, com câmera parada, frontalmente posicionada, sempre na perspectiva do público.

Mas o impressionante filme seguinte, “A conquista do Pólo” (George Mélies, 1911) também nos lembra que bem rapidamente começaram a se estruturar os princípios da narrativa cinematográfica, alguns anos antes sistematizado por Grifith em Intolerância (1909). Nesse filme, Mèlie mostra toda sua habilidade em contar uma história, com referências curiosíssimas e com muito humor, usando e abusando de trucagens cinematográficas, e refletindo um imaginário de sua época, onde progresso, eletricidade, ciência, aventura, conquista ocupavam importante espaço. O cenário pintado, os movimentos exagerados de representação, as câmeras paradas (embora já exista algum movimento), a linearidade da história, os parcos recursos, entretanto, nos lembra com nostalgia dos primórdios dessa linda arte. Nesse momento, o público já estava tomado e aplaudindo enfaticamente a cada curta.

“Gertie, o dinossauro” (Winsor McKay, 1909) talvez tenha sido um dos primeiros filmes de animação com desenhos. Simplesmente maravilhoso! “O hotel elétrico” (Secondo de Chomón, 1906) também segue a linha de animação, só que dessa vez com objetos. Imagino a surpresa que deve ter sido na Espanha quando foi exibido.

Por fim, “The surf girl” (Mack Sennett, 1916), uma hilariante comédia, já no estilo pastelão, lembrando-nos que nas primeiras décadas do século XX esse gênero atingiu seu auge. Alguns movimentos de câmera e diferentes angulações já podem ser notadas.

Enfim, com esses pequenos filmes, podemos perceber porque o cinema marcou tanto o século XX, ao representar (e espantar, e constestar, e surpreender) para o público valores tão em voga para aquela sociedade. E talvez possamos entender porque continua sendo o cinema tão presente em nosso cotidiano: pela sua capacidade de seguir acompanhando (e mesmo ocasionando, influenciando) os desdobramentos sociais.

Gente, volto a dizer: essas coisas não se perdem!! Há tempos não me sentia da mesma forma como me senti aos 6 anos de idade, quando vi Fantasia de Disney no cinema América na Praça Saens Peña: absolutamente encantado. Naquele dia senti, hoje voltei a sentir e cheguei a entender por que amo tanto essa maravilhosa arte. Emocionante, muito emocionante.

Por Victor, 04.07.2003