Swimming pool – por Keila Valente
SWIMMING POOL
François Ozon
DOGVILLE
Lars Von Trier
Incômono: é uma das palavras que traduz a sensação dos dois primeiros filmes que assisti este ano. Swimming pool (François Ozon) e Dogville (Lars Von Trier). Os dois me causaram a mesma sensação de maneiras diferentes. O primeiro nos traz a surpresa de sentimentos que imaginamos não ser possível. Uma escritora de romance policial bem sucedida se vê diante de uma crise com relação ao que vinha produzindo até então (o que já é um incômodo), quando aceita o pedido do chefe de viajar para sua casa de campo, e lá conhece uma jovem – Julie – (filha do tal chefe, que ao que parece era seu amante), que costuma passar uma temporada na casa do pai, cheia de vida e sensual, que lhe causa uma estranha atração. A partir daí começa a escrever sobre a figura, e passa a ser sua cúmplice num crime, aparentemente, idiota. Mas que para mim faz sentido se pensado do ponto de vista psicanalítico – embora não conheça porra nenhuma de psicanálise. Mas pra quem sempre teve tudo a hora que quisesse, principalmente os homens, uma negativa (um não) poderia significar um passo para um crime. Mas o que me parece mais interessante é como ela (a escritora) se descobre através da personagem de Ludivine (Julie). Era como se sua vida precisasse de algo concreto (relacionado à carne) para ter sentido. Mas ao final nos fica a sensação de que toda aquela história é criada (ou imaginada) pela escritora Sarah Morton.
Já o filme de Lars incomoda pelo fato de que um suposto ativista ou “líder comunitário” (no início da década de 30 nos EUA, logo após a crise), para utilizar um vocabulário mais próximo de nós, se utiliza de seus poderes ‘intelectuais’ para subjugar uma refugiada (Grace, interpretada pela linda Nicole Kidman) – que fugia do pai, aparentemente um líder mafioso- a todo tipo de exploração possível. Em certo momento da película parecia estar assistindo a uma prévia da sociedade atual, em que os empregados sem ter saída, se submetem a todo tipo de exploração.
Outro dia conversando com uma prima – indignada pelo patrão quase exigir que ela fique algumas horas após o expediente trabalhando para ele sem pagar hora extra – e uma outra amiga que trabalha numa empresa de conserto de aparelho celular, me dei conta de que é exatamente o que acontece: à reclamação da primeira, a segunda respondeu: “..mas todos os patrões acham que vc tem que trabalhar algumas horas depois, pq isso significa que vc é interessada e esforçada (pois caso contrário é muito fácil encontrar outro desesperado por emprego”)…
Para além das questões políticas e psicológicas levantadas todos dois são, diferentemente, maravilhosos. O Lars com aquela câmera inquieta e o Ozon com aquele detalhismo poético, arrebentam!
Bjs a todos e boas sessões
Por Keila – 19.01.2004