Reflexão sobre Jogos Olímpicos do Tibete
JOGOS OLÍMPICOS, ESPORTE, POLÍTICA E NOVAS FORMAS DE PROTESTOS: SOBRE OS JOGOS OLÍMPICOS DO TIBETE/2008
Por: Victor Andrade de Melo / Universidade Federal do Rio de Janeiro
De 4 em 4 anos (às vezes de 2 em 2, quando há Jogos Pan-Americanos na cidade, ou devido às Copas do Mundo de Futebol), voltamos a ouvir a mesma história. Supostamente o mundo deveria parar seus conflitos para que, em 15 dias de um festival esportivo, celebrasse a fraternidade e a solidariedade entre os povos (sejamos justos que pouco se fala em liberdade nessas ocasiões).
Tirando aqueles que ainda crêem em figuras fantásticas (como o Papai Noel, a Fada do Dente, o Duende da Floresta ou mesmo na terrível Loira do Banheiro, que tanto assombra as crianças em idade escolar), sabemos que esse discurso não passa de uma enorme estratégia para potencializar a venda e o consumo de produtos relacionados a uma das mais impressionantes e fascinantes manifestações culturais da modernidade (o esporte), naquele que é um de seus principais palcos (os grandes eventos internacionais, como é o caso dos Jogos Olímpicos).
Esporte e política sempre andaram juntos, isso não é de hoje. Poucos não foram os regimes totalitários que a ele se ligaram como forma estratégica de se acercar da população, de demonstrar o seu poder, de propagar determinados valores, cujo exemplo mais conhecido são os Jogos Olímpicos de Berlim/1936, também chamados de Jogos de Hitler ou Jogos do Nazismo.
Também ao redor do esporte se organizaram iniciativas de resistência. Os bascos e Catalãos tinham os espaços esportivos como fóruns de reunião no período de Franco. As mulheres iranianas hoje lutam pelo direito de assistir os jogos de futebol nos Estádios. Nos Jogos Olímpicos do México (1968), Tommie Smith e John Carlos, medalhistas de ouro e bronze nos 200 metros rasos, no pódio levantaram seus braços, de punhos cerrados e com as mãos cobertas por luvas negras, reproduzindo a saudação dos Panteras Negras. Por tal atitude, suas medalhas foram caçadas e ambos expulsos da delegação norte-americana.
Há ainda os episódios violentos. Nos Jogos Olímpicos de 1972 (Munique), atletas israelenses foram mortos depois de tomados como reféns pelo grupo palestino Setembro Negro. Em Atlanta (Jogos de 1996), uma bomba explodiu no Olympic Centennial Park, causando medo e matando duas pessoas. Isso sem falar nos boicotes de 1976 (Montreal), de países africanos em função do Apartheid/África do Sul; de 1980 (Moscou), de países aliados aos Estados Unidos, supostamente em função da invasão soviética no Afeganistão; e 1984 (Los Angeles), o troco do bloco soviético, supostamente pela falta de segurança.
Nesses últimos dias vemos mais uma vez a forte ligação entre esporte e política, que tanto querem negar os dirigentes esportivos mundiais. Seguindo-se aos protestos de monges, que reivindicavam a liberdade do Tibete (invadido pela China desde 1951) e foram massacrados pela polícia chinesa, por todo o mundo surgem manifestações, cujos fatos mais significativos ocorreram por ocasião do acendimento da Tocha Olímpica, realizada em Atenas, e mais recentemente com o impedimento do bom andamento do desfile da chama pelas ruas de Londres e Paris (onde foi inclusive foi apagada e teve que seguir o trajeto de ônibus).
O que diferencia esses protestos dos anteriores? A própria ordem mundial e a estratégia e alcance da reivindicação, que faz uso dos mecanismos telemáticos (internet, celulares, etc.) para conclamar e envolver gente por todo mundo. Estamos todos em rede, eu, você, as empresas e corporações, as organizações de contestação que se reúnem no Fórum Mundial Social e contra as reuniões da OMC. Uma luta quase já não é mais de um grupo pequeno, mas repercute por todo o planeta, dando visibilidade enorme ao que outrora poderia ser apenas um problema interno (como a China insiste em afirmar).
Do ponto de vista simbólico, esses jogos já são o mico que ficou na mão da China. Por mais que a organização seja fantástica (e o será), por mais que os meios de comunicação exaltem as realizações e esqueçam os protestos, como provavelmente fará e o fez, por exemplo, por ocasião dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro (que hoje poderiam ser chamados de Jogos Pré-Dengue?), essa versão da competição não provará a grandeza do país, como esperavam os chineses, mas confirmarão a tese de que se trata de um regime desumano e violento. Os Jogos da China serão os Jogos do Tibete, país que, alias, sequer era conhecido por grande parte da população antes dos protestos.
Esse prognóstico vai se tornar mais concreto se alguns chefes de estado confirmarem que não comparecerão a abertura, postura já anunciada pela Chanceler Alemã, Angela Merkel, e pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy. Há ainda pressões sobre o primeiro-ministro inglês e sobre o presidente norte-americano para que façam o mesmo. O Parlamento Europeu já discutiu o boicote. Menos provável é que países e atletas venham a boicotar os Jogos, até mesmo porque grande parte dos Comitês Nacionais tem contratos comerciais assinados com patrocinadores diversos.
Do ponto de vista do negocio, o que realmente interessa aos dirigentes da chamada “família olímpica”, as coisas seguirão em frente, ainda que as empresas patrocinadoras expressem sua preocupação, não pelo Tibete, é obvio, mas sim por ter sua imagem ligada à tamanha polêmica. Marcas de refrigerante, de celular, de informática, de produtos esportivos, redes de televisão devem se esforçar mais ainda para convencer a todos que se trata do grande espetáculo de união internacional (tirando o Tibete; que país impertinente, não?).
É óbvio que o esporte tem total relação com a política, como não poderia deixar de ser, já que se trata de uma prática social como outra qualquer. Quem afasta essa relação são os interessados nas velhas benesses de sempre, negociantes, em diversos graus, do fascínio que ocasiona a prática esportiva. Episódios como esses dos Jogos do Tibete não só explicitam tal relação, como também o quanto é equivocado analisar o esporte a partir de um modelo único maniqueísta (a velha chave esporte=alienação). A complexidade desse fenômeno nos conclama a análises mais aprofundadas. O esporte em si não tem uma essência boa ou ruim. Os usos que dele se faz é que vão determinar, sempre de forma matizada e relativizada, sua potencialidade enquanto ferramenta de possível união (ou não) dos povos.
O esporte é humano (demasiadamente humano) e histórico. Como seres humanos, vamos sim assistir os Jogos de Pequim/Tibete, e provavelmente muitos de nós vamos torcer pelas seleções/atletas nacionais ou nos encantar com a magia artística das realizações atléticas. Mas convém não esquecer o Tibete. Convém não esquecer que aquilo que nos encanta nenhuma relação linear tem com solidariedade e/ou fraternidade. É um negocio como outro qualquer, que inclusive pode ou não contribuir para a melhoria das condições de vida dos cidadãos. Os Jogos de 1992 foram, por exemplo, fundamentais para Barcelona. Quanto aos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro…alguém pode me emprestar o repelente?
Date: Tue, 8 Apr 2008 17:00:37 +0000
From: monicacs.rlk@terra.com.br
To: victor.a.melo@uol.com.br
CC: monicacs.rlk@terra.com.br; anima@listas.nce.ufrj.br; historiadoesporte@grupos.com.br; esportecinema@grupos.com.br
Subject: Re: [Anima] Reflexao sobre Jogos Olimpicos do Tibete
Pois é, Victor, as manifestações de reinvidicação agora são de carater quase mundial. Taí o Forum Social, as manifestações do Greenpeace e outras. Além de internacionais, estas manifestações, cada vez mais tb, ganham um caráter espetacularizado.
As pressões sobre os chefes de Estado tb são interessantes, já q os q pressionam não se interessam com as formas de repressão econômica q os próprios países impõem sobre nações e as vezes continentes inteiros!
Do q ouvi, nosso chanceler se posicionou nessa celeuma a favor da China!
Será q isso levará a manifestações por aqui sobre isso ou estamos ocupados demais matando mosquitos, desviando de balas perdidas e otras cositas más?
Bjs preocupadíssimos, Monica
Comentários
# 1. t.o.b
Publicado em 13/08/2008, às 23:50
e muito bom entra neste saite
# 2. daniel
Publicado em 22/08/2008, às 15:42
oi td bem adoro vc