O último beijo – por Victor Melo

O ÚLTIMO BEIJO
Gabriele Muccino
SAMSARA
Pan Nalim

Uma questão de escolha

O Último Beijo conta a história de um grupo de amigos que moram em Florença e de maneiras diferentes passam por uma crise aos 30 anos. Um deles é um apaixonado não correspondido, insatisfeito com seu trabalho. Outro passa os dias a fumar maconha, se envolver com muitas mulheres diferentes e vender CDs piratas. O terceiro tem problemas com a esposa, que dele se afastou após o nascimento do filho, e também está insatisfeito com o trabalho. O quarto (Carlo) entra em crise ao descobrir que vai ser pai, embora esteja a 3 anos com a mesma companheira (Giulia), sentindo também falta da paixão dos primeiros momentos. Com isso, se envolve com uma menina de 18 anos, que não terminou o colegial, colocando em risco seu casamento. Adenda-se a isso a crise no casamento dos pais de Giulia.

Numa trama filmada de forma bastante ágil e interessante, com belas atuações dos atores, a diretora tematiza as diversas crises que acometem os seres humanos. O que fazer de nossa vida? Quais escolhas tomar? Ficar em um emprego estável ou viajar de forma aventureira pela África? Casar, ter filhos e uma casa confortável com piscina ou viver aventuras amorosas a cada noite?

Já em Samsara, Tashi, um jovem que chegou a um mosteiro budista aos cinco anos, depois de 20 anos de estudo e mais de 3 anos de privação e meditação, é finalmente considerado um “Kempo”, caminho fundamental para o nirvana (momento em que interromperia seu ciclo contínuo de vida e morte). Contudo, é nesse exato momento que as tentações do sexo começam a acomete-lo, ainda mais quando conhece Pema, uma linda jovem da vila. Mesmo com todas as tentativas, suas e de seu líder espiritual, de se adequar, Tashi resolve fazer o caminho inverso (Samsara) e encontrar a amada, se afastando do amor incondicional à Buda. Larga a segurança do mosteiro para encontrar a emoção nos braços de Pema.

Com imagens de tirar o fôlego e uma trilha sonora magistral, o diretor nos apresenta um belo retrato de uma bela e pouca conhecida tradição oriental, seus ritos, hábitos, valores, também tematizando as difíceis escolhas comuns na vida humana.

Ambos nos levam a questionar: onde estará a felicidade? Ambos não concedem saídas lineares, nos fazendo crer que pode estar no mosteiro ou no corpo da mulher amada; em um emprego “sério” ou na aventura cotidiana. Pode sim estar na transgressão, mas quem disse que a rotina não é, se consciente, uma forma de transgredir? Se a felicidade está também ligada às condições sócio-econômicas-culturais, também não seria responsabilidade e uma forma de escolha de cada um? Uma forma de tomada de posição corajosa, de quebra ou de adaptação ao que é mais significante?

Dois filmes de nacionalidades tão diferentes, ligados a diversas tradições (que de alguma forma tem estágios de interpenetração), nos fazendo pensar sobre uma peculiaridade da espécie humana. Como escolher quando são muitos os desejos? Ou citando Drummond: “a tarde seria mais azul se não houvesse tantos desejos”! Se cada caminho traz sempre vantagens e desvantagens, como pesar tudo isso quando em certo sentido a ambição é uma marca humana? Se as escolhas são necessárias, é no mínimo necessário que tracemos nossos caminhos da forma mais consciente possível, é o que parece dizer os filmes, sem negar que nem sempre tudo depende da gente (aliás, nunca tudo depende só da nossa vontade).

Ambos tocam em pontos cruciais das relações humanas: a escolha de ter ou não filhos (e o impacto desses em nossa vida) e a tão polêmica questão da (in)fidelidade (muito mais do que um fortuito contato corporal), na medida em que é mais presente em nossas vidas do que podemos a princípio vislumbrar. Entre a liberdade da vida e Giulia, sua esposa, Carlo fica com essa última. Entre Buda e Pema, também Tashi escolhe Pema. De alguma maneira aí não está uma forma de infidelidade? Essa deve ser relativizada na medida que se trata de uma escolha. Mas e quando surge Francesca (na vida de Carlo) e Sajata (na vida de Tashi), qualquer que seja a escolha não seria de alguma forma infiel a algo? Trataria-se talvez de escolher que caminho de infidelidade apresenta as maiores possibilidades de felicidade, e isso nem sempre é fácil no calor dos acontecimentos, ainda mais quando sabe-se que a escolha de um caminho, tende a fechar o outro.

Em Samsara temos apontamentos mais concretos de um possível caminho, na medida que em O Último beijo a composição tende ao relativismo completo de escolhas possíveis. Em Samsara, o líder religioso se pergunta: “vale a pena perseguir muitos objetivos ou concretizar somente um?”. É Pema, sábia, que responde em outro momento com uma metáfora: se lançarmos um graveto em um rio, o que acontece com ele? Ele às vezes afunda um pouco, flutua muito, desvia-se dos obstáculos e chega ao oceano. Pena (ou ainda bem) que não somos (ou não deveríamos ser) gravetos…

Ambos os filmes pouco respondem sobre tamanhas inquietações, mas lançam muitos olhares e possibilidades de pensar. E, além do mais., quem falou que é função dos filmes responder diretamente algo e não lançar dúvidas?

Ao final de Samsara, o diálogo entre Pema e Tashi lança uma outra escolha urgente e atual para a sociedade humana em tempos de fundamentalmso: é preferível uma religião imutável e intolerante que desconsidera a própria religiosidade ou seria melhor uma intensa religiosidade que pode até mesmo, em última instância, prescindir da religião? Esse é um claro desafio para que a espécie humana não caminhe para a auto-dissolução.

Por Victor, 21.04.2003