O teatro de Bertold Brecht – por Ana Brasil Machado

Palestra de Luis Sanz, “O teatro de Bertold Brecht”

Teatro é assunto que dá pano pra manga…e a palestra do Prof. Sanz foi realmente muito boa.
Brecht estava “de olho no mundo” e de certa forma, me sinto emocionada em lembrar que nunca estivemos sozinhos e que nossos antecessores nos deixaram muita coisa boa.
Mando em anexo dois poemas dos quais me lembrei durante a palestra: o primeiro de Ferreira Gullar me soa como um apaixonado apelo.O segundo é do próprio Brecht e é uma severa crítica à historiografia tradicional que fazia questão de esquecer os “homens comuns”.
Acredito na arte como fator para a transformação social. E mais que isso,com toda a utopia e paixão da juventude, acredito que outro mundo é possível e necessário.

HOMEM COMUM
De Ferreira Gullar

Sou homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento.

Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.

Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o guarda-sol vermelho ao meio–dia
em Pastos-Bons,
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei
bocas bafos bacias
bandejas bandeiras bananeiras
tudo
misturado
essa lenha perfumada
que se acende
e me faz caminhar
Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista
e não vejo na vida, amigo,
nenhum sentido, senão
lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
Quero, por isso, falar com você,
de homem para homem,
apoiar-me em você
oferecer-lhe o meu braço
que o tempo é pouco
e o latifúndio está aí, matando.

Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank
a IT &T, a Bond and Share,
A Wilson, a Hanna,
a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros
braços do polvo
a nos sugar a vida
e a bolsa
Homem comum, igual
a você,
Cruzo a Avenida
sob a pressão
do imperialismo.
A sombra do latifúndio
mancha a paisagem,
turva as águas do mar
e a infância nos volta
à boca, amarga,
suja de lama e de fome.
Mas somos muitos
milhões de homens
comuns
e podemos formar
uma muralha
com nossos corpos
de sonho e margaridas.
 
 

Perguntas de um trabalhador que lê
Bertold Brecht

Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros constam nomes de reis.
Foram eles que arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída?
Quem a reergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro
Moravam os construtores?
Na noite em que se terminou a Muralha da China
Para onde foram os pedreiros?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo
Quem os construiu?
Sobre quem triunfaram os césares?
A Bizancio tão cantada,
Tinha somente palácios para os seus habitantes?
Mesmo na lendária Atlântida,
Os que se afogavam gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Conquistou sozinho?
César abateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro consigo?
Filipe da Espanha chorou quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?

Cada página uma vitória.
Quem preparava os banquetes?
A cada dez anos um grande homem.
Quem paga suas despesas?

Tantas histórias.
Tantas perguntas.

Por Ana Brasil Machado, 29.05.2003