O Pianista – por Victor Melo

O PIANISTA
Roman Polanski

Baseado em fatos reais, Polanski conta a história de um pianista polonês judeu que, contando com a sorte, com uma série de coincidências e com muita obstinação, consegue sobreviver ao massacre de seu povo pelos alemães, nos guetos e nas ruas de Varsóvia, durante a 2a Grande Guerra. O que faz dessa película, que poderia aparentemente ser mais uma acerca de temática já tão discutida e retratada, um grande filme? O que há de especial na abordagem desse notório diretor?

Poderíamos situar a crueldade de certas cenas como um desses fatores. Poucas vezes se viu no cinema a condição de violência e humilhação a qual o povo judeu foi submetido ser retratada de forma tão direta e crua, com seqüências que nos fazem retorcer nas cadeiras e deixam nosso estômago embrulhado. Em um primeiro momento, no terço inicial do filme, a abordagem é mais coletiva, englobando o drama geral para a população de judeus; nos dois terços finais, quando já estamos horrorizados, o diretor desloca o centro para um drama individual, onde assistimos abismados um ser humano se tornar um farrapo (aliás, maravilhosamente representado pelo ator Adrien Brody, que já filmara Pão e Rosas com Ken Loach, entre outros), à busca de a todo custo sobreviver àquela insensata perseguição. Depois de uma hora de filme, pensei que já tinha visto tudo e as crueldades estavam na verdade somente começando, mantendo-me preso e atento ao desenvolvimento da trama.

A crueldade filmada por Polanski não está em um contexto de clímax cinematográficos, não é preparada. É seca, surpreendente, naturalizada mesmo, uma “crueldade cruel” e completamente sem propósito, conforme o fora concebida e implementada pelos nazistas.

O filme também destaca-se por não investir no maniqueísmo das situações. Se os nazistas procederam efetivamente um processo cruel de limpeza étnica, nem todos os alemães concordaram com isso, e muitos foram os que lutaram para tentar alguma saída (temática aliás já filmada por Spielberg em “A Lista de Schindler”). Da mesma forma, vários foram os judeus entreguistas que acabaram servindo aos projetos nazistas. O próprio personagem central tem uma posição dúbia: se está indignado com a situação, no fundo tenta da melhor forma possível uma saída para o seu problema (antes também de sua família, que em vão morre nos campos de concentração), mesmo abandonando lutas coletivas de resistência (que depois se mostraram ineficientes). Como culpar as opções individuais em meio ao caos? Se o filme de Polanski não instaura um relativismo de isenção absoluta, também nos deixa profundas dúvidas sobre as possibilidades de julgar as opções subjetivas em meio a tamanho conflito social.

Para mim foi também esplêndido o conflito entre a arte e a guerra que se apresenta na película. Poderia a arte salvar? Indiretamente, por certo, o pianista usa de sua notoriedade artística para estabelecer uma rede de solidariedades que o ajudaram enquanto foi possível. Mas sua arte em si, salva? A arte em si, salva? Aparentemente somente em um momento, quando um oficial alemão não o mata por tocar bem seu instrumento. Contudo, futuramente somos instados a perguntar se na verdade não havia uma atitude de interesse daquele oficial, esperando um favor futuro, já que percebia que a Alemanha estava a perder a guerra. Aliás, vale a pena lembrar que os alemães eram admiradores de várias manifestações artísticas e que essas estiveram diretamente contempladas em seu projeto de controle social. Mas uma vez o diretor deixa espaço aberto para o questionamento, se negando às respostas fáceis e lineares.

Aliás, duas cenas, no que se refere ao papel da arte, foram para mim centrais: um momento em que o ator central toca imaginariamente um piano, já que deveria se manter em silêncio; e a já citada cena em que toca piano para o oficial alemão, como se sua arte estivesse no último recôndito de dignidade. Seria a arte, em última instância, o bastião da dignidade humana? O diretor não responde, e tampouco eu me arriscaria a tal.

Para mim o ponto central na abordagem do diretor é o fato de que, mesmo com um final esperado (o “herói” se salva), as questões que permeiam o filme não encontram respostas lineares e fáceis, nos instando contantemente a pensar a todo custo nos caminhos possíveis para evitar os conflitos de guerra, que acabam por instaurar a irracionalidade e a nos tornar não em humanos, mas em bichos à busca da sobrevivência.

Enfim, O Pianista é um grande filme, de um grande diretor, que tem a coragem de reler feridas já tão remexidas, com originalidade, profundidade e veemência. Aliás, tal releitura vem mesmo a calhar em momento tão peculiar, quando mais uma vez um único homem acredita que pode implementar a certeza pautada na guerra e na destruição de um povo, em um conflito que pode trazer proporções universais, colocando em risco a paz mundial a tanto tempo perseguida, mesmo que com não eficiência completa, vide os muitos conflitos que ainda se observam pelo mundo.

O Pianista é um alerta e um épico de esperança que nos lembra de episódios que ocorreram a tão pouco tempo, para que não esqueçamos que numa guerra, quem morre e gente como eu e você, gente que tem filho, que namora, que trabalha, que gosta de futebol e que não tem nada haver com as tramóias de poderosos e seus projetos de controle mundial.

By Victor, 08.03.2003