O homem que virou suco – por Bruno Gawryszewski

O HOMEM QUE VIROU SUCO
João Batista de Andrade

Quando entrei no cinema do CCBB para assistir a esse filme, confesso que nem sabia o seu nome, já que o motivo principal de estar lá, era assistir “Eles não usam black-tie”. Por conta disso, fui muito esculhambado pelo Carlinhos, Victor e Fabinho.

É um filme que mostra os dissabores de um nordestino que migrou a São Paulo para tentar a sorte na cidade grande, passa grandes dificuldades financeiras, sofre com o “demérito” de ser nordestino e, ainda por cima, é confundido com um operário que havia esfaqueado seu patrão.

No entanto, mais importante do que o supracitado, antes de tudo um filme anárquico que mostra um paraibano (interpretado brilhantemente por José Dumont) que, mesmo enfrentando todo o tipo de dificuldade, chuta o balde contra a exploração do trabalho, contra o capital acumulado, contra a mais-valia, contra as frescuras da burguesia (que rendeu uma cena hilária onde roubou o bife preparado especialmente para o cachorro viado).

O personagem principal é um cara que não se adapta à lógica do trabalho extenuante, servil e opressor, debochando de seus patrões e escrevendo poesias sobre homens (nordestinos) que viram suco de laranja, explorados até esfolar a pele.

Posso destacar uma interessante cena quando este (e outros trabalhadores nordestinos) assiste a um vídeo de boas maneiras do Metrô. O vídeo mostrava um personagem fictício com o sugestivo nome de Virgulino Ferreira da Silva, que por “coincidência” também era um cangaceiro do Nordeste. Virgulino era cabra-macho em sua terra e, atraído pela oferta de emprego no Metrô de São Paulo, decidiu que iria domar essa cobra. Chegando a SP, Virgulino procurou a obra do Metrô e começou a trabalhar. Só que Virgulino debochava de cartazes como “Respeite seu chefe”, ameaçava a todos com sua “peixeira” e “dava vários miguéis” no serviço. Percebendo que a situação estava insustentável, o patrão o mandou embora com apoio de todos os seus colegas. E o vídeo termina dizendo que Virgulino não teve disciplina para o trabalho e, por isso, sua estadia em SP foi um fracasso. Uma mensagem mais do que explícita sobre moldes de comportamento na sociedade, que, para vencer na vida, basta ser dócil e obediente ao patrão, talvez chegue a ser auxiliar de gerente. E uma mensagem calhorda, que se apropria da imagem do cangaceiro Lampião, para difundir seus valores.

Como disse o poeta no filme “Enquanto a fortuna dorme tranqüila, a desgraça nunca descansa”. Um filme contra toda forma de opressão.

Por Bruno Gawryszewski – 03.03.2004