O filho da noiva – por Victor Melo
O FILHO DA NOIVA
Juan José Campanella
Quantos vezes você abraçou com carinho seus familiares e amigos nos últimos meses? Quantas vezes, recentemente, você parou para apreciar com calma a beleza de uma flor caída ao solo ou de uma poesia delcamada ao acaso? O filme em questão fala disso, de cuidado, de amor? É um melodrama?
Poderíamos abordar O Filho da Noiva a partir de muitas óticas diferentes. De cara podemos dizer para o leitor que não espere muitas inovações estéticas, mas um filme direto, embora com muitas pequenas, belas e eficazes metáforas, que se mantém no equilíbrio tênue entre o drama e o dramalhão, com muitas sacadas humorísticas, um pouco longo, com ótimos atores, sem muito papo cabeça: o filme bate direto no coração ao dialogar dramas individuais com a difícil situação econômica argentina e, porque não dizer, de todo o mundo.
Rafael Belvedere é um homem de 42 anos assoberbado com as tarefas cotidianas e as dificuldades de administrar (a contragosto aliás, somente para provar que pode fazer algo na vida) um restaurante familiar (herança de seus pais) em meio à crise argentina e à sedução de um grupo internacional que pretende comprar seu estabelecimento. No meio de toda essa correria (vive no telefone celular) pouco olha para os pais, para a namorada, para a filha e para si mesmo. Parece pronto a brigar com tudo o que passa pelo seu caminho.
Ao seu lado, o pai idoso celebra a longevidade ao cultivar um amor de 44 anos com Norma, sua esposa (mãe de Rafael), que se encontra em um asilo com Mal de Alzheimer. Enquanto tudo faz para ver sua esposa um pouco feliz que seja (e ainda acha pouco) contrasta com Rafael, que pouco faz para o próximo e ainda acha muito. Para fazer Norma feliz, o velho decide abrir mão de seu sonho de viajar a Itália e decide casar na Igreja com Norma, um velho sonho dela ainda não realizado. Contrapõe-se a vida fast de Rafael com o estilo lento de seu pai, que nos leva a pensar: para que corremos tanto? Onde vamos chegar assim?
A história de Rafael começa a mudar no momento em que sofre um infarto, ficando à beira da morte. A partir daí, começa a repensar arduamente sua vida, tentando com dificuldades entender os erros que cometeu e têm cometido, mesmo que a princípio de forma atabalhoada e maniqueísta. Só o decorrer do tempo pode demonstrar a Rafael o que sua sensibilidade perdeu.
O Filho da Noiva nos leva a refletir sobre até que ponto não reforçamos a crise econômica de valores ao aderirmos de forma incondicional a seus princípios. Celebra a descoberta do amor cotidiano (e como é difícil tirar poesia desse leito de pedras!), a dificuldade do reencontro, a busca de novos princípios, nos incomodando com nossa própria lógica de vida.
Nos mostra o quanto nos apegamos a coisas de menor importância (por exemplo, disputas menores ridículas de poder; necessidades de provar algo a quem bem não sabemos) e acabamos por abandonar o essencial em nossa vida, aquilo que podemos construir para e em conjunto com as pessoas que amamos e devemos aprender a amar. Como é difícil o exercício do amor em uma sociedade que nas entrelinhas prega o desamor e a insensibilidade!
O Filho da Noiva nos lembra que sonhos precisam ser sonhados e precisam de tempo para tal, até mesmo porque, talvez, melhor do que a realização desses sonhos seja o processo contínuo de sonhá-los.
No meio de tudo isso, o diretor ainda distribui críticas ao escapismo e a covardia, a farsa e a hipocrisia, ao modelo econômico, ao modelo familiar, a igreja, como se quisesse traçar um mapa, mesmo que superficial, das agências que implícita ou explicitamente propagam esse modus vivendis pautado na infelicidade ou na felicidade superficial.
Filho da Noiva é um belíssimo filme, à beira do imperdível.
By Victor, 10.12.2002