O chamado – por Victor Melo

O CHAMADO
Gore Verbinski

Que tipo de filme é “O Chamado” ? Como analisá-lo? Se formos considerar o filme como um produto típico do cinema comercial (”circuitão”), O Chamado é um belo filme de suspense, como há muito tempo não assistia. Um filme que realmente causa medo, sem apelar para sustos fáceis ou cair em fórmulas comuns. Boa produção (a despeito de certos furos ou ausências no roteiro), belíssima fotografia, atores bonitos e competentes (sem serem acima da média), ritmo adequado, fazendo com que o público embarque e fique preso à trama. Se formos contudo, encarar por essa ótica, o final é no mínimo surpreendente, talvez até decepcionante, por ser abrupto e não cair em uma fórmula comum. O público em geral, aliás, parecia sair bastante confuso ou irritado do cinema.

É esse mesmo final que pode nos chamar a atenção e permitir outra análise para o filme: será que é mesmo O Chamado um produto típico do circuitão ou uma proposta híbrida, fazendo uso do cinemão para apresentar algumas reflexões e tematizar questões contemporâneas? O final acaba desviando nossa atenção para muitas metáforas que podem passar desapercebidas pelo clima de suspense. Uma fita de vídeo é central na trama, os personagens são jornalistas e fotógrafos, grandes televisões trazem o “fantasma”, insinuações de que só a cópia e a lógica imagética hegemônica pode salvar, constantes críticas à imprensa, crianças como portadoras da crítica e do sofrimento, ao mesmo tempo ativas e passivas, agentes dos chamados.

Seria o filme uma crítica ao mundo de imagens e suas imposições, suas alienações e suas fugas, comuns ao atual momento da modernidade (ou, como alguns preferem, da pós-modernidade?).

Independente da leitura possível, O Chamado é no mínimo um filme instigante e interessante, levando-nos a refletir que pode existir também vida inteligente no grande circuitão de cinema, tornando determinadas classificações maniqueístas (tudo da cultura de massas seria ruim, tudo da cultura erudita seria bom) estéreis e limitadas. É um filme que vale a pena de ser visto com olhar sem preconceito e cuidadoso.

By Victor, 04.02.2003