O casamento de Romeu e Julieta – por Victor Melo
O CASAMENTO DE ROMEU E JULIETA
Bruno Barreto
“O casamento de Romeu e Julieta”, de Bruno Barreto, não é um grande filme. As críticas publicadas em dois jornais de grande circulação já dão conta disso: é verdade que a história é previsível (uma típica comédia romântica nos padrões norte-americanos) e não há nenhuma inovação estética na abordagem do assunto.
Mas e daí? Daí se eu fosse você não acreditaria em tudo em que os críticos dizem (como aliás, ainda bem, normalmente o público faz) e iria correndo assistir a esta divertida película. Diversão: esta é a palavra-chave para que se possa apreciar esse exemplo de “cinemão”, daqueles que Barreto parece ter aprendido a fazer nos últimos anos em que tem morado e produzido filmes nos Estados Unidos.
Ora, parece que alguns críticos esquecem que cinema também é um espetáculo de massa, uma diversão, assim como é o futebol. Parece que com ambos por vezes persiste um certo “preconceito intelectual” em função desta característica, como se isso fosse algo menos legítimo.
O fato é que o filme de Barreto investe exatamente nessa dimensão de ambas as linguagens, buscando captar de forma irônica (mesmo que exagerada) a loucura da paixão do torcedor. E para os críticos que acham algumas situações do filme absurdas, vale a pena a leitura dos estudos de Arlei, sobre a torcida do Grêmio, e de Silvio Ricardo, sobre o torcedor vascaíno.
Barreto consegue captar todo o espetáculo futebol? Por certo que não, pois este não é mesmo captável em sua plenitude por linguagem nenhuma, somente por aqueles que se arriscam a ir a um estádio com freqüência e mergulhar cotidianamente nas peculiaridades dessa arte popular. O futebol é uma arte da performance, sem script, intraduzível em sua plenitude. De qualquer forma, nesta película, as cenas de futebol estão bem acima da média geral de filmes nacionais que tematizam o assunto.
Vi a sessão no velho Palácio, no centro da cidade, agora lindamente reformado, embora mantenha o péssimo som. A sessão fez lembrar que nas origens do cinema, os filmes eram assistidos com intensa participação popular, com o público falando e se envolvendo profundamente com o que era exibido na tela, longe desse cinema de intelectuais que exige silêncio e concentração (que também é maravilhoso, por certo). A questão não é contrapor modelos cinematográficos, mas respeitar, garantir a existência e se divertir com ambos. Tem filmes que exigem silêncio, outros não.
O que vimos no Palácio foi uma platéia envolvida com o filme, rindo e participando ativamente, tudo temperado por um maluco (literalmente) que ficava gritando “mengo!” no meio do filme. Ninguém repreendeu o maluco, pelo contrário: ele virou parte do espetáculo e das risadas efusivas. Foi uma sessão inesquecível!
Voltando ao filme, Luis Gustavo, caricato, e Marcos Ricca, contido e em um de seus melhores papéis, se destacam no elenco. Os outros atores não deixam a peteca cair e Luana Piovani, de beleza cinematográfica, mantém um tom sóbrio adequado a proposta do filme. Não é uma grande atriz, mas vale lembrar que na história do cinema temos outros exemplos de “não grandes” atrizes que se tornaram destaque pela beleza ampliada nas telas.
Enfim, deixa para lá as críticas (essas sim “ruim do pé”) e vá de espírito desarmado assistir o filme, pronto para se divertir, assim como quando vamos aos estádios de futebol, vamos não para tecer filosofias sobre o mundo (só as baratas, as melhores por sinal), mas para simplesmente gritar, xingar, perder as estribeiras.
Tenho defendido que um dos principais motivos da popularidade do esporte (com destaque para o futebol) está no fato de ele ser tão “imoral” em uma sociedade tão asséptica. Se você se livrar das “morais de botequim” e aceitar o convite sensível, por certo vai se divertir com os exageros e tensões que mais uma vez unem essas duas artes fascinantes: futebol e cinema.
Por Victor – 19.03.2005