Melanie Klein – por Monica Monteiro

MELANIE KLEIN
de Nicholas Wright

O teatro Maison de France é moderno e elegante. Não tem a pompa de um grande teatro, seus espaços são reduzidos, feitos para o centro da cidade. O ambiente é bem decorado, mas as poltronas são desconfortáveis. O ar condicionado faz um zumbido que acompanha todo espetáculo e seu sistema de exaustão praticamente não existe. Nas cenas em que se acendem cigarros, a fumaça acompanha as atrizes por minutos, até ser consumida pelo fôlego. Não deve ser fácil inalar fumaça por 4 dias da semana, para quem não é fumante.

O ambiente é cheio de escadas. Duvido que um cadeirante consiga assistir ao espetáculo sem solicitar um esquema organizado para sua locomoção. No inicio ouvimos uma gravação que anuncia: “este teatro segue as normas francesas e brasileiras de segurança”. França e Brasil talvez não levem em consideração seus deficientes físicos.

O público é constituído praticamente de mulheres. É um espetáculo de mulheres para mulheres no mês em que se comemora o dia internacional da mulher. Os homens presentes eram simples acompanhantes. O que surpreende é o barulho dos saquinhos mexidos durante as falas. Pelo som é possível detectar amendoim, jujuba, roscas e balas; um verdadeiro piquenique embalado por um drama alemão, em um teatro francês, com um público carioca (com toda informalidade que lhe é peculiar). Foi no mínimo curioso.

O texto é bom, mas o publico é leigo. Estava muito concentrado em fingir que entendia. Ri quando não tem graça alguma. Ficavam catatônicos aos pés das atrizes. Foram para ver Nathália ou sua personagem global. As divas justificam o ingresso. Nathália Timberg relembrou nossas mães, Carla Marins despertou o desejo científico e Rita Elmôr a sobrevivência feminina.

O cenário é bonito e funcional. A parede vermelha ao fundo identificava aquela casa como “casa de uma mulher”. As flores vivas davam o tom burguês necessário. A quantidade de bebida no espetáculo provocava sede, não uma sede desértica, mas uma sede de nó na garganta. O intervalo nos atos deu o tempo da reflexão.

Nathalia Timberg é Melanie Klein. A menina ambiciosa que se transformou em mãe “bem sucedida”. Criou os filhos ao mesmo tempo em que escreveu suas teorias psicanalíticas. Com seus estudos deu continuidade a obra de Freud. Uma mulher do século XIX que viveu seu trabalho, fez de sua vida sua obra e utilizou seus filhos como objetos de pesquisa. Uma matriarca dominadora que consegue gerenciar a todos como parte de uma engrenagem. Uma mãe com todo egoísmo que isso representa associada a uma psicanalista com interesses na infância.

Carla Marins é Melitta. A doutora Schmideberg que critica os artigos de Melanie Klein como defesa à constatação do desrespeito profissional sofrido por influência da mãe. Uma filha, carente de mãe, procurando nas teorias psicanalíticas respostas para construir todas as justificativas para o sentimento de abandono maternal que atormenta sua vida. Um embate que as une e separa temperado por um ciúme gigantesco de Paula. Uma relação entre mãe e filha que dramaticamente ressalta as dificuldades ao longo da vida. Melitta sobrevive à mãe.

Hanz, o defunto. Responsável pela marca implacável que representa sua morte. É retratado com uma personalidade que representa um sentimento de libertação desta dominadora que é Melanie Klein. Tão mal resolvido que desaparece desta vida. Hanz não sobrevive à mãe.

Rita Elmôr é Paula Heimann. Sobrevivente. Sobrevive à condição de estrangeira na Alemanha no período que antecede a segunda grande guerra. Sofre com a separação do marido e da filha. Tem a figura de Melanie Klein como substituta de sua mãe e ao mesmo tempo em que se vê na figura de Melitta. Justifica todos os seus atos em função da idealização da imagem de Melanie, até conseguir ser analisada por ela.

Uma obra da burguesia para a burguesia, retratando temas do núcleo familiar sem a preocupação de discutir assuntos sociais ao qual fomentava a Europa em guerra. Quem vive no mundo das análises, entende diversos diálogos que para os pobres mortais passa inócuo. Quem vive no mundo maternal identifica-se o tempo todo com texto. Quem não vive no mundo maternal, confirma que mais difícil que ser filha é ser mãe.

Por Mônica Monteiro – 22.03.2004