Margem da imagem – por Victor Melo
À MARGEM DA IMAGEM
Evaldo Mocarzel
À Margem da Imagem é um belo documentário brasileiro, claramente inspirado na forma de filmar do mestre Eduardo Coutinho, que se dispõe a dar voz a moradores de rua da cidade de São Paulo ao mesmo instante em que questiona o uso que se faz das imagens de miséria e pobreza nos diversos meios de comunicação e descortina os limites da contribuição do cinema para promover qualquer intervenção na ordem social. Ao permitir a fala da população excluída, questiona: quem ganha com a exposição da miséria humana? Como lidar com os aspectos éticos imanentes a tal relação? Haveria uma certa estetização da pobreza?
Para aqueles que trabalham com as diversas minorias sociais, a película serve como um alerta: quem fala e como fala pelos excluídos? Qual o real compromisso de quem com esses grupos se envolve? Quais as reais possibilidades de que a intervenção tenha algum significado para a vida dos envolvidos? Leva-nos a crer que as únicas saídas para resolver esses paradoxos que se interpõe a ação são assumir claramente os limites da intervenção, se esvair de qualquer sentido vanguardista na atuação e estabelecer o ouvir como parâmetro central da aproximação, muito mais importante do que o falar, o apontar, o indicar, que potencializam o risco da anacronia, já que não comungamos radicalmente da mesma situação do grupo excluído envolvido.
Ao ouvir com cuidado os moradores de rua, o filme derruba qualquer visão de apaticidade e acriticidade do grupo. Percebemos o quão complexa é a sua realidade, suas histórias, seus pontos de vida e identificamos seres humanos que claramente identificam os motivos que os levam a viver em situação de tamanha dificuldade. Impressiona aos menos atentos o grau de consciência dos entrevistados.
Nos mostra também o terrível papel que ocupa o Estado em sua tradicional imobilidade para lidar com as diferenças e desigualdades. Não sabendo como solucionar ou abordar o problema, encontramos um Estado que transita entre um suposto desconhecimento e ou desconsideração para com os problemas ou então com uma ação enérgica que serve simplesmente como controle ou destruição.
No belíssimo final, radicalizando o estilo de Coutinho, o diretor exibe o filme para os entrevistados e pergunta o que acharam. Isso desencadeia críticas sinceras aos limites da abordagem e da contribuição da película. Creio que este clímax bem se articule com a fala de uma freira que trabalha com o grupo de moradores de rua. Afirma ela que a ética nem sempre está na expressão, mas sim na intenção dos que se envolvem com as lutas de minorias sociais. De minha parte, não creio que a intenção seja suficiente, mas por certo é um bom começo e condição sine qua non. E o belíssimo filme de Morcazel é um exemplo disso.
Por Victor, 27.09.2003