Entre quatro peredes – por Bruno Gawryszewski

ENTRE QUATRO PAREDES
de Jean Paul Sartre (Teatro)

Bem, amigos, depois de alguns comentários cinematográficos, vou agora me aventurar no teatro.

Assisti uma peça chamada “Entre quatro paredes” em uma das salas alternativas do Teatro Carlos Gomes. A peça, escrita por Jean Paul Sartre, conta a história de três desconhecidos que se encontram no inferno.

Chegando ao inferno, os três estranhos entre si se fazem a mesma pergunta: “Então é assim?”. O inferno continha três puffs e mais nada. Então eles se perguntam: “Cadê as correntes, os chicotes, o carrasco, trabalhos forçados, cadê?”. Não há mais nada além de três puffs. Toda a mistificação imposta pelos homens na Terra havia se acabado em um instante com essa surpreendente descoberta. À medida que conversam, debatem, se xingam, se opõem, eles perdem o medo de estar naquele lugar, instaurando-se a desesperança e a tensão de terem de ser obrigados a exercitar e resolver um dos maiores problemas dos homens na Terra que é a tolerância e o convívio harmônico entre si. Então dizem: “o medo existia enquanto tínhamos esperança” e acabam optando em um primeiro momento pela reclusão total, onde todos deveriam ficar calados, cada um na sua. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

Poderíamos relembrar quatro tópicos da filosofia existencialista para situarmos a peça escrita por Sartre:
a) Individualismo moral: contra a dicotomia de julgamento entre certo/errado, nenhuma base racional pode ser encontrada em decisões morais.
b) Subjetividade: a experiência individual e suas convicções são essenciais para se chegar à verdade.
c) Escolha: o homem tem livre-arbítrio, não há uma natureza genuinamente humana, o homem se constitui através da suas escolhas.
d) Horror à liberdade: reconhecimento e desorientação por se situar dentro de uma vida com liberdade às suas escolhas.

Existem três personagens: um jornalista completamente atormentado com seus desejos e anseios, um sujeito que queria a todo custo desafios para, assim, ser reconhecido por seus entes queridos. Foi ao inferno porque torturava a esposa; uma jovem “alpinista social” que se casou com um homem rico, idoso, com o objetivo de ascender financeiramente. Tinha um amante mais jovem que a amava intensamente, mas era pobre e ela o rejeitou. Acabou engravidando, mas, após o nascimento do filho, jogou-o pela janela. Ele, então, se matou com um tiro no rosto; e uma funcionária dos correios, a mais intrigante, extrovertida, tinha respostas para tudo o que lhe era perguntado e gostava de provocar os outros dizendo todas as verdades que vinham à sua cabeça. Porém, altamente sensível à rejeição daqueles que a cercavam.

Com a fracassada tentativa de se manterem alheios uns aos outros, eles vão descobrindo através de seus julgamentos e opiniões, da necessidade que têm entre si. No entanto, isso não se ocorre de forma estanque e é conflituoso a todo o momento, ora se distanciam, ora se aproximam, ora dois se aliam contra um.

Dentro de suas conversas, relatam o que fizeram de mais terrível em vida, sem, no entanto, demonstrar arrependimento porque estavam fazendo o que lhe proporcionavam mais prazer. Portanto, através dos tópicos citados acima, constroem sua “ausência”, como eles mesmos denominam, desde a primeira impressão do inferno até a sua desconstrução enquanto espaço de penitência e castigo.

Não sei se (existe) o inferno é assim mas Sartre foi brilhante ao expor suas idéias existencialistas na peça, sinalizando que o homem é construído através de suas escolhas e, a subjetividade, determinante para acreditarmos em algo e prosseguirmos com fé e luta.

Por Bruno Gawryszewski – 16.02.2004