Cia Vata – por Victor Melo

CIA VATA (CEARA)

Estavamos, eu e Ines, sentados no Teatro 3 do CCBB, olhando para o palco (italiano) quando o som das tres campainhas tocaram anunciando que o espetaculo iria comecar. Assim como nos, todos mantinham o olhar fixo a frente, esperando o inicio da danca, quando do fundo da plateia surgem os dancarinos/brincantes, com figurinos inspirados na tradicao da cultura popular, cantando e tocando musicas regionais, chamando a plateia a intervir. Depois de entoar uma embolada que lembrava hip-hop (intencionalmente, diga-se de passagem), o grupo sobre ao palco, incorporado pelas tradicoes populares, e fazem a plateia ficar possuida pelo som e pela danca.

Assim comecou e se desenvolveu o espetaculo da Cia Vata (Ceara). Novidade? Isso nunca foi visto? Em absoluto! Isso ja foi visto muitas vezes. Mas o que teria de novidade na contemporeidade? Sem entender muito de danca, lembro das licoes de arte plastica, de cinema e cultura para rememorar que uma das marcas da contemporaneidade eh exatamente a releitura das tradicoes. Assim sendo, poderiamos perguntar, o que ha de realmente novo no contemporaneo?

Tendo em conta que o ecletismo e o sincretismo sao chaves na compreensao da cultura nacional, vale a pena recordar que as releituras sempre foram constantes na cultura nacional. Se lembrarmos do chorinho (seculo XIX), do proprio modernismo nacional, do tropicialismo e o recente movimento mangue beat, vamos encontrar uma vocacao nacional para a antropofagia, tema inclusive de uma recente Bienal de Artes de Sao Paulo. Poucas culturas no mundo tem a nossa capacidade de ressignificar o universal aos olhos do local, fazendo-nos duvidar de todo o poder de globalizacao que os maniqueistas costumam conferir.

A Cia Vata, ao reler e repassar sob o olhar da danca contemporanea as tradicoes da cultura popular, nos lembra que o mundo cabe no Brasil e que de certa forma o Brasil eh uma sintese do mundo. O acurado estudo da movimentacao corporal das manifestacoes da cultura corporal dialogam de forma sincretica com o hip-hop, com o sapateado, com os DJs, citados de forma intencional, nos fazendo identificar tracos universais na cultura local.

A Cia Vata nos lembra de Nobrega, de Chico Science, de Gil e Caetano, nos fazendo crer que esse pais sempre foi contemporaneo, por nao negar suas raizes, antes rele-la. Faz-nos crer que a contemporaneidade eh uma marca academica para normatizar o que o dancarino de samba, frevo, maracatu e baiao sempre fizeram. Faz-nos desconfiar que a danca contemporanea, que supostamente contrapoe um academicismo da danca classica, mesmo que se constituindo em uma nova instituicao estanque, eh mais devedora do que credora da tradicao brasileira.

Ou alguem conhece algo mais contemporaneo do que o candomble, com seu ecletismo de origem, relido pelo sincretismo nacional (umbanda), incorporando as diferencas como ninguem? O que o contemporaneo desconfia, o brincante nacional ja faz a muito tempo! Talvez por isso nossa arte moderna nao tenha tido tanto espaco quanto a arte contemporanea, ou como negar tal rica possibilidade de circularidade cultural?

Nao sei se a Cia Vata eh boa danca (desconfio que seja, mas nao tenho competencia para julgar), mas sei que eh um grande espetaculo, nos fazendo auto-identificar-se no Rio, no Nordeste, em Nova Iorque, no mundo. Vata eh musica ao vivo, voz, corpo, movimento, sensacao penetrante. Eh happening: palavra e evento mais contemporaneo nao ha. Poucas coisas no mundo sao tao happenings do que a cultura nacional. Eh coisa boa, coisa nossa, coisa que nao o deixa parado na cadeira, orgulho e patriotismo nao ridiculo, coisa brasileira. Salve Vata!!!

Por Victor, 14.04.2003