Cabra-cega – por Inês Galvão

CABRA-CEGA
Toni Venturi

Ontem, juntos, eu e o Victor, vivemos uma experiência estética inesquecível. Sentimos na pele o que nos fala Brecht sobre o distanciamento. Mergulhados no filme, não perdemos em nenhum momento a idéia de participação ativa, reflexiva, onde nos foi permitido sentir e refletir profundamente nossas vidas. Logo após a exibição tomamos uma cerveja e por alguns momentos ficamos emudecidos, tomados de emoção. O final do filme nos conduziu a uma sensação que chamamos de vertigem. Estávamos na rua Voluntários da Pátria percebendo nossas vidas como processos de metamorfose, onde o arriscado desequilíbrio é fundamental para nos mover do lugar onde em alguns momentos da vida nos prendemos.

O filme nos fala sobre uma época que as gerações mais novas não viveram, décadas de 1960, 70, quando a violência e a falta de liberdade reinavam livres nas ruas. Não vivemos essa época mas ela faz parte da nossa história. Toni Venturi, o diretor, nos leva para uma incrível viagem nos tempos, pois ao mesmo tempo em que vemos o que já passou, refletimos intensamente o momento presente, no sentido de pensarmos o quanto temos de trabalhar para as mudanças sociais. Os grandes heróis já se foram, temos que pensar as transformações a partir daqueles que fazem do seu dia a dia um ato de heroísmo perante as inúmeras sobrevivências cotidianas, sem a perda do prazer ínfimo de viver, a emoção e a loucura de cada momento.

Seriam esses heróis do dia-a-dia também nossos alunos, os mais excluídos, de olhar baixo, que respeitam mais o outro, atropelando limites, emoções e até mesmo seu direito como ser humano. Buscando saídas pela abertura dos nossos canais sensíveis estamos assumindo o dever de olhar para todos sem barreiras de preconceitos, sensíveis aos problemas sociais, desigualdades que estão presentes em nossas salas e que muitas vezes se escondem pela falta desse olhar aberto para o mundo. Querendo ser ativo nas mudanças sociais temos que mediar olhares, experiências, culturas, histórias, olhar com a vontade suficiente de ver a realidade do outro e partilhar a nossa angústia de transformar o mundo.

O filme nos fala de política, de paixão, de solidariedade, de confiança, de poesia, de vida, sem a pretensão de enviar mensagens claras, tudo está em estado metafórico, mas gritando para ser devorado por nossos sentidos. Naquele momento vivia-se a impossibilidade de alternativas, escolhas. Quem ajudou na luta contra a ditadura, foi muitas vezes incompreendido pelos seus próprios parceiros e se entregou sem escolha a coragem de lutar.

E hoje? O que queremos? Contra o que lutamos? Com quem lutamos? No disfarce das redes mundiais, a exclusão, a injustiça, a falta de sensibilidade impera. Tudo está muito mais velado do que imaginamos. Temos que voltar ao argumento principal do filme: o que adianta a revolução se não conseguimos nem ao menos vislumbrar a existência do outro de forma plena, olhar o outro de forma sensível, vê-lo na totalidade das contradições do ser humano. A personagem feminina do filme nos mostra esse equilíbrio entre medo e coragem, alegria e tristeza, entrega e comedimento, razão e emoção.

A trilha sonora acompanha o roteiro de forma brilhante. A escolha dos atores também é fundamental na medida em que todos conseguem criar um clima de humanidade durante toda a trama. Existe tensão, aquela que nos faz estabelecer uma ligação e uma entrega absoluta no passar do tempo, tempo suficiente para nos fazer deslocar de nossos mundos opacos e herméticos.

Não quero comentar o filme literalmente, quis apenas relatar essa oportunidade de viver intensamente a sétima arte, transformando de alguma forma o meu sentido de estar neste mundo.

>Por Ines – 15.04.2005