Brilho eterno de uma mente sem lembrança – por Victor Melo
BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇA
Michel Gondry
O papel sempre ativo da memória
Seria possível apagar a memória? A quem isso interessaria? Quais os riscos? A película de Gondry, por trás de uma história de amor, com destaque para as belas atuações de Jim Carrey (surpreendentemente contido) e Kate Winslet, parece tocar nestas questões.
Como forma de fugir dos sofrimentos, pessoas se submetem a uma máquina que apaga as más lembranças. A esse processo se submetem Joely e Clementine, depois de sofrerem forte desilusão amorosa. Ambos solitários, aparentemente muito diferentes, retratos de uma sociedade solitária, se encontram por acaso, se amam e se perdem por não lidar explicitamente como que os separava. Por isso, pretendem se “apagar” um da vida do outro. Os responsáveis por apagar a memória, em menor ou maior grau, não são lámuito sérios, constantemente operando com uma ética deplorável, em seu benefício próprio. De qualquer forma, oferecem um suposto “mundo novo”, com a dor afastada.
Podemos pensar em uma parábola à sociedade contemporânea, onde uma poderosa máquina de sonhos parece querer obliterar o acesso aos diversos sofrimentos, por meio de um determinado conceito confuso de prazer, construindo uma forma de fuga às dificuldades cotidianas. Manipular a memória e construir uma nova subjetividade parece ser um objetivo claro. Sem sofrer muito, os indivíduos, contudo, parecem, fragmentados, também não ter o prazer profundo como parâmetro de vida. Não surpreende que ofilme faça referências implícitas e explícitas (em dois momentos) a Nietszche.
Mas seria possível o controle completo das memórias? Seria este umprocesso linear? Joely escapa, resiste, busca saída em sua própriamemória, constantemente perseguido pela máquina de apagar. Foge, representa outros papéis, encontra-se em espaços ocultos de sua memória: só ela pode conceder alguma esperança de vitória; em última instância, ela (por mais agredida que seja) é o último bastião, a última e mais poderosa arma. Mas para tal, há que se abrir os olhos com vigor, o que nem sempre é fácil, tal o poder da máquina.
Mas a própria memória é uma arma paradoxal, uma faca de dois gumes. Se guarda possibilidades de resistência, também se volta contra os sujeitos, na medida que os expõe, os deixa nus. Sem memória, não se sabe bem o ques e foi; com ela, pode-se saber, mas isso nem sempre significa lembranças agradáveis… Daí, como já disse o poeta, a memória ser “uma ilha de edição”, onde os editores são os sujeitos e as forças sociais, em um duelo de múltiplas facetas onde a felicidade (o que seria isso?) ou falta dela (o que seria isso?) seriam os troféus nunca alcançáveis na plenitude. A memória é humana, muito humana (parodiando Niesztche).
De qualquer maneira, a memória parece ser algo fundamental para os indivíduos e para a sociedade. Ora, só (a) vivendo radicalmente é que poderemos contrapor a qualquer tentativa de controle. Só a descortinando como elemento ativo.
Belas imagens, bela fotografia, bela direção, belas atuações, um roteiro coerente com o que se propõe o filme, várias surpresas e um fim muito interessante. Bateu em cheio na minha memória… fazia muito tempo que eu não sentia com tanta intensidade o fascínio que o cinema (esta arte da memória e da edição) pode promover nos seres humanos. Para concluir, a bela canção de Beck fecha o filme dizendo:
“Change your heart
Look around you
Change your heart
It will astound you
I need your lovin’
Like the sunshine
Everybody’s gotta learn sometime
Everybody’s gotta learn sometime
Everybody’s gotta learn sometime”
Por Victor – 27.07.2004