As Horas – por Carlos Pereira

AS HORAS
de Stephen Daldry

Intrelaçando a história de três mullheres que em diferentes épocas viveram uma angustia em comum, “As horas” nos traz um sem número de aspectos para discussão. Me deterei em apenas um que achei mais importante.

Poderia dizer sobre essa difícil tarefa de trazer para a telona algo tão singular que é uma obra literária. Será que se deve fazer uma simples transposição de uma linguagem para outra ou devemos procurar pensar como Júlio Bressane, que é preciso fazer uma transcrição intersemiótica?

Poderia dizer sobre a boa fotografia e a composição de planos bastante interessante onde se privilegia os movimentos mais finos (percebam a mão de Virginia) dando oportunidade para os atores interpretarem com mais sutileza (grata surpresa com Nicole Kidman num papel dificílimo, interpretar nada mais nada menos que Virginia Wolf).

Poderia dizer sobre a trilha sonora comandada por Philip Glass, onde um piano de fundo comanda uma narrativa dilacerante que nos faz entrar dentro dos personagens e seus sentimentos.

Poderia dizer sobre o excelente roteiro onde as temáticas sugeridas pela vida das três mulheres foram muito bem amarradas. Também sobre o trabalho do continuísta, tendo em vista que tratar com cenas de três tramas diferentes simultaneamente é bastante difícil.

Poderia falar sobre as várias idéias que Daldry teve para atrelar as três histórias, como a idéia do som do ovo quebrando, do beijo entre duas mulheres e a questão do papel do médico e da Ciência (que acho bastante interessante para pensarmos o papel da E.F.).

Mas o que mais me chamou a atenção e que foi trabalhado com maestria pelo diretor, foi um fio condutor que permeio todo o filme.

Por que viver?

“É realmente possível morrer!” – Essa foi a resposta que Virginia Wolf deu a seu marido quando este lhe perguntou porque era necessário alguém morrer em seus romances. Um resposta aparentemente tola, mas que nós, pelo menos com bastante seriedade, nos detemos em raríssimos momentos.

É realmente possível morrer!
É realmente possível morrer!!
É realmente possível morrer!!

Já passou pela sua cabeça que vc pode morrer neste exato momento? Já pensou que tudo que vc imaginou para o seu futuro (família bonitinha, um bom emprego, um belo status social) nada mais é que algo completamente provisório, e não um fim em si mesmo, não um objetivo comum para toda a humanidade?

Pois é ?!?! Não pensamos nessas coisas todos os dias. Às vezes, quando um amigo morre, quando um parente falece, quando algo terrível acontece (alguma doença ou acidente) é que nos detemos nesses “assuntos”. Ficamos muito tristes, não compreendemos nada, achamos que foi “coisa de Deus” ou que “chegou a sua hora”, ou pior, “é, a vida é assim mesmo…”, mas nunca fazemos a pergunta que o marido de Virginia fez: Por que morrer?

Essa idéia da perecidade da vida, da finitude da existência, é a grande matéria prima que faz do filme algo notável.

“É realmente possível morrer” – Se respiramos, dormimos, comemos, exercitamos é porque estamos no mundo, é porque temos vida! Mas morremos um dia … , então, para que a vida?? Porque temos esse “dom”?

Obviamente que o filme não tenta responder essas perguntas (aliais inrespondíveis!) afastando-se muito de qualquer tipo de manual de auto ajuda muito comum nos dias de hoje. Essa bela película não tenta nos confortar ou trazer uma solução imediata, mas, pelo contrário, problematiza. Nos obriga, mortais espectadores, a darmos o nosso parecer.

“É preciso alguem morrer para o outro valorizar a vida” – Nessa frase cataclismica, Virginia diz que infelizmente não estamos preparados para valorizar a vida e só quando temos consciência da morte é que podemos chegar mais perto de tal sensação, tal inquietude que enriquece nossa alma, servindo como catapulta para novas experiências – “O contraste”.

Mas como fazer isto? como ter consciência da mortevida? Uma outra personagem dá uma pista: “Estou toda banal e não aquento mais, é justo eu EXPLODIR”. O que é esse explodir? Por que é justo explodir?

Acredito que essa banalidade que a personagem relata é algo que estamos extremamente atolados nos dias de hoje. Uma banalidade dos costumes, uma banalidade da família, uma banalidade dos relacionamentos, do amor. Tudo virou palavra fácil. Tudo pode ser dito ser a menor parcimonia, como se as sílabas fossem meros instrumentos de masturbação mental, e a força da língua algo que devemos utilizar somente para alcançar cargo X ou Y. Se ela quer explodir, ela quer justamente fugir do banal, sair da mediocridade e ser ela mesma, e não mais um “espelho”. Então como chegar a ser si mesmo, como explodir?

Neste momento, Virginia nos dá outra pista: “Neste (romance) quem morre é o POETA, o POETA vai morrer”. O Poeta vai morrer? Será que Virginia está falando da pessoa Poeta ou será que ela está falando de um ser poeta?

Acredito que uma das formas para chegarmos mais próximo dessa sensação desestabilizadora da mortevida é através da Tragédia. Mas como chegar à Tragédia? Única e exclusivamente pela poesia. A poesia é aquela que vai nos trazer a ilusão e nos derrubar no fundo do ser. Pela poesia alcançamos algo nosso, demasiadamente nosso, plenamente humano, um extrato de energia que produz. Para se fazer poesia é preciso ser poeta, e quando se mata o poeta, se mata a poesia, se mata a vida aproximando-se da morte. Então é preciso re-nascer o poeta. E esse está em nós e ao mesmo em ninquém. O poeta é a arte!!!! E que despertemos o poeta em cada um de nós!!!!!!!!

Que fazemos da vida nossa maravilhosa obra-prima!!!!

Por Carlinhos, 09.05.2003