As cinzas de Deus – por Inês Galvão

AS CINZAS DE DEUS
André Semenza

Foi com muitas expectativas que eu, Patrícia e Victor nos encaminhamos para a projeção de Cinzas de Deus. Na verdade, ainda é para mim uma grande mágica a realização de um diálogo entre linguagens tão lindas, sem a perda das características mais significativas de cada uma. A dança alcança sua maior intensidade quando se presentifica no tempo e no espaço, no diálogo intérprete-espectador, e, ao mesmo tempo, a presença da câmera influencia o foco do olhar do espectador, direcionando-o. Acho que são pontos importantes quando analisamos a obra de Semenza.

O filme se desenrola nas ruínas de uma cidade mineira, onde diversas figuras, representadas por bailarinos do grupo de dança Zikzira, vivem experiências cármicas de um passado desconhecido. Não possui uma narrativa clássica, sendo inspirado num poema chamado Metamorfoses.

Cinco intérpretes diversificam a composição das cenas que variam entre grupo, duos, trios e solos. A atuação dos bailarinos é muito forte e ao mesmo tempo “temperada” para cada cena. Em algumas temos qualidades muito suaves de movimentação, em outras mais intensidade e questionamento, em outras um humor grotesco em cena e algumas vezes a apatia numa movimentação muito técnica, mas expressiva e portanto muito segura e intencional.

Durante o filme, os intérpretes são dirigidos para uma interpretação totalmente voltada para a cinematografia. Eles se preocupam com o olhar e parece que estão conscientes de que nós, espectadores, podemos estar muito próximos dos olhos e de cada parte do corpo a qualquer instante. Os detalhes do figurino e do cenário são muito importantes na construção da ambientação do filme. Janelas e portas quebradas constróem molduras na tela do cinema, sapatos de salto fazem contrapontos com corpos nus, lama e terra pintam figurinos e corpos durante o desenvolvimento da coreografia, sapatos compõem verdadeiras orquestrações pisando em telhas na execução de giros, saltos e transferências de peso.

É muito impressionante como as linguagens dialogam construindo uma nova expressão híbrida e ao mesmo tempo não perdendo suas características fundamentais. Pelo contrário, as características mais importantes de cada uma contribuem para o enriquecimento da outra linguagem. Quando nossos olhos penetram no movimento dos pés da intérprete, conseguimos captar emoções que, se estivéssemos de frente para um palco tradicional italiano, jamais conseguiríamos alcançar. Ao mesmo tempo, quando temos um plano fixo, bailarinos brincam com entradas e saídas do belíssimo cenário moldado por janelas, portas e iluminado muitas vezes por velas.

A variação de granulação do filme compõe esteticamente com o todo, dando um envelhecimento às imagens que parecia nos remeter ao passado, integrando-se com algumas rendas dos figurinos.

Em muitos momentos o zoom da câmera no corpo do intérprete faz com que ignoremos a forma total, e imaginemos uma nova grandeza para o detalhe de cada parte e das partes que se tocam.

Como estudo para a dança, o filme nos leva a refletir sobre a totalidade e a integração de cada gesto na cena, como cada parte do nosso corpo é fundamental para a expressão do todo, como é importante o estudo dos planos e do tempo-ritmo para a apreciação de uma obra coreográfica.

Fiquei muito encantada com o filme e muito estimulada a pesquisar novas formas de realização e propagação da arte do movimento.

Por Ines, 06.10.2003.