Sobre o Grupo Anima

Apresentação

“Incorporo a revolta
Dança do intelecto e
Dilaceração dionisíaca
Obsessiva idéia de fundar uma nova ordem
Frente às categorias exauridas da arte
E a indignação da rebeldia ética
A quase catatonia do quase cinema
E o súbito epifânico do Éden
Samba, o dono do corpo
Expressão musical das etnias negras ou mestiças
No quadro da vida urbana brasileira”Waly Salomão

“Experimentar o experimental
Experimentar o experimental
A fala da favela
O nódulo decisivo nunca deixou de ser o ânimo
de plasmar uma linguagem convite para uma viagem”

Waly Salomão

As origens do Grupo de Pesquisa “Anima” se encontram no ano de 1999, quando foi criado o Grupo de Pesquisa “Lazer e Prostituição”. Em 2002, a partir da chegada de novos membros e do ampliar das discussões no âmbito do grupo, criou-se o Grupo de Pesquisa “Lazer e Minorias Sociais”.

No final do ano de 2004, em função de novos deslocamentos conceituais e da necessidade de melhor explicitar a linha de atuação do grupo, foi criado o “Anima”, uma continuidade histórica dos grupos anteriores. O objetivo do “Anima” é estudar/pesquisar o lazer em suas múltiplas dimensões, com denotado interesse para a questão da intervenção pedagógica, concedendo-se a “Animação Cultural” espaço especial de discussão e de construção teórica. A perspectiva dos Estudos Culturais concede o norte teórico que embasa as ações e reflexões do Grupo de Pesquisa “Anima”.

Como qualquer ocorrência histórica, o conceito de cultura não pode ser encarado de forma homogênea e uniforme, como algo dado a priori ou que possua uma suposta essencialidade. Suas definições modificam-se no decorrer do tempo em função das relações de poder e dos interesses envolvidos nos embates e tensões entabuladas pelos atores sociais que por motivos diversos transitam no campo gerador e gerado ao redor do conceito.

É importante perceber que:

A mecanização, a estandardização, a superespecialização e a divisão do trabalho, que antes determinavam apenas a esfera da produção de mercadorias nas fábricas, penetram agora em todos os setores da existência da agricultura à recreação e, é claro, à produção cultural (…) Nunca se produziu tanta cultura e nem tantos meios de comunicação diferentes como a partir dos anos 1960, e nem nunca ela foi tão claramente um produto feito e consumido para azeitar o funcionamento do sistema vingente (Cevasco, 2003, p.69).

Se a produção cultural sempre esteve ligada aos interesses das classes dominantes, no capitalismo tardio se torna ainda mais estratégica, um fórum de luta dos mais importantes: “As artes e as práticas culturais em geral não apenas refletem essa situação determinante: elas também produzem significados e valores que entram ativamente na vida social, moldando seus rumos” (Cevasco, 2003, p.112).

Como, enquanto profissionais ligados ao Lazer e à Animação Cultural, que têm a responsabilidade de promover intervenções pedagógicas no âmbito do lazer/cultura, devemos compreender o nosso papel a partir dos arranjos contemporâneos do conceito de cultura?

Heloísa Buarque de Hollanda, em palestra ministrada no V Seminário Lazer em Debate, realizado no Rio de Janeiro (2004) nos dá uma pista inicial:

Feliz com a surpresa da descoberta de tantas homologias entre os Estudos Culturais e os Estudos do Lazer, penso que a contribuição que essa palestra sugere foi, na realidade, a oportunidade deste encontro que sinalizou para mim a urgência da formalização de uma colaboração mais estável e programática entre essas duas áreas de risco, ambas marcadas a ferro e fogo pelos traços tão complexos quanto mutantes da contemporaneidade.

O que pretendemos com o “Anima” basicamente é dar prosseguimento a este processo de busca de encontro, de perseguição de uma referência teórica que nos permita novos e mais sólidos entendimentos sobre os desafios que se apresentam para os que militam no âmbito da cultura e que identificam sua atuação como estratégica na construção de uma nova ordem social.

Cremos que os Estudos Culturais, em seu intuito de estabelecer uma leitura da “alta cultura” e da “cultura popular”, bem como estabelecer um certo olhar sobre a “cultura de massas” (na verdade, rompe-se definitivamente com uma compreensão estática desses “níveis culturais”, agora entendidos profundamente relacionados e com fronteiras bem pouco precisas) pode apresentar perspectivas alvissareiras para pensarmos a Animação Cultural e os Estudos do Lazer.

A abertura, a versatilidade, a busca constante da reflexão e da crítica, a característica interdisciplinar dos Estudos Culturais (uma necessidade, já que uma única disciplina acadêmica, nos moldes tradicionais, não seria capaz de dar conta de compreender a complexidade dos processos culturais), o desafio (nem sempre alcançado, mas sempre apontado) de romper com a burocracia disciplinar universitária, tudo isso os elegem como bons interlocutores.

Mais um ponto em comum: por se apresentarem de maneira distinta à forma tradicional de organização do conhecimento no âmbito acadêmico, ambas sofrem com uma imprecisão quanto a seu espaço e tem que travar verdadeiras “batalhas campais” (fazendo uso de uma expressão de Beatriz Resende) para serem reconhecidas, respeitadas e legitimadas no mundo universitário.

Aliás, outra (feliz) coincidência é que ambas se apresentam como “Estudos”. Sobre esse aspecto, se posiciona Beatriz Resende (2002):

A primeira coisa que me agrada nos Estudos Culturais é apresentarem-se como estudos. Instala-se, imediatamente, uma provisoriedade, uma abertura, que me parece indispensável em um momento de questionamentos, de necessariamente assumirmos as dúvidas que vivemos diante do século que se inicia (p.11).

Gostaria ainda de lembrar que os momentos iniciais dos Estudos Culturais surgem quando Raymond Willians e E.P.Thomspon, que junto com Richard Hoggart compõe os primórdios dessa perspectiva teórica, trabalhavam como professores de classes de trabalhadores no ensino noturno. Foi a partir dessa prática concreta, dessa experiência de intervenção pedagógica, que se questionaram sobre o que se ensinava e como se ensinava, tendo em vista tornar mais efetiva uma contribuição para a superação da questão da imposição de valores por parte da classe dominante. Os Estudos Culturais nascem de um compromisso de professores, que se entendem para além de meros reprodutores de conteúdos. O próprio Willians afirma:

Estamos começando a ver artigos de enciclopédia que datam o aparecimento dos Estudos Culturais a partir deste ou daquele livro de finais dos anos 50. Não acreditem em uma só palavra. A mudança de perspectiva de ensino das artes e da literatura e sua relação com a história e a sociedade contemporânea começou na Educação para Adultos, não começou em nenhum outro lugar (apud Cevasco, 2003, p.61).

Pelo que temos defendido como conceito de Animação Cultural, queremos correr o risco de afirmar que Willians e Thompson eram animadores culturais em sua experiência e que, logo, é dessa dimensão que nascem os Estudos Culturais. Logo, talvez ambas as perspectivas tenham mesmo mais em comum do que podemos a princípio supor, como já identificara Hollanda em seu artigo (2004). Trata-se de uma relação original, no sentido de identificado nas origens. Os Estudos Culturais nascem como Animação Cultural. E, de forma ousada, queremos afirmar que cremos que a Animação Cultural pode resgatar alguns dos projetos originais dos Estudos Culturais, de certa forma esquecidos, abandonados ou hoje menos valorizados em função dos caminhos pelos quais essa outrora “não disciplina” vem percorrendo nos últimos anos.

Para satisfazer qualquer necessidade de uma definição mais clara, poderíamos conceituar a Animação Cultural como uma tecnologia educacional (uma proposta de intervenção pedagógica), pautada na idéia radical de mediação (que nunca deve significar imposição), que busca contribuir para permitir compreensões mais aprofundadas acerca dos sentidos e significados culturais (considerando as tensões que nesse âmbito se estabelecem) que concedem concretude a nossa existência cotidiana, construída a partir do princípio de estímulo às organizações comunitárias (que pressupõe a idéia de indivíduos fortes para que tenhamos realmente uma construção democrática), sempre tendo em vista provocar questionamentos acerca da ordem social estabelecida e contribuir para a superação do status quo e para a construção de uma sociedade mais justa.

É uma proposta de Pedagogia Social que não se restringe a um campo único de intervenção (pode ser implementada no âmbito do lazer, da escola, dos sindicatos, da família, enfim, em qualquer espaço possível de educação), nem pode ser compreendida por somente uma área de conhecimento (por isso buscarmos subsídios nos Estudos Culturais).

Mais do que uma definição única e absolutamente precisa de Animação Cultural, cremos que seja necessário perseguirmos um “espírito”, uma inspiração que possa conduzir nossas ações cotidianas de intervenção. Temos trabalhado com a possibilidade de pensarmos em um “espírito surrealista” para a Animação Cultural, não no sentido de reproduzir completamente o ideário do surrealismo (por exemplo, pretendemos nos afastar muito da idéia de “vanguarda”), nem tampouco o considerando restritamente como uma escola literária ou de artes plásticas, mas como:

um movimento de revolta do espírito e uma tentativa eminentemente subversiva de re-encantamento do mundo. Isto é, de reestabelecer, no coração da vida humana, os momentos “encantados” apagados pela civilização burguesa: a poesia, a paixão, o amor-louco, a imaginação, a magia, o mito, o maravilhoso, o sonho, a revolta, a utopia. Ou, se assim o quisermos, um protesto contra a racionalidade limitada, o espírito mercantilista, a lógica mesquinha, o realismo rasteira de nossa sociedade capitalista-industrial, e a aspiração utópica e revolucionária de “mudar a vida”.É uma aventura ao mesmo tempo intelectual e passional, política e mágica, poética e onírica… (Lowy, 2002, p.9).

É para perseguir este “espírito” que está constituído o Grupo de Pesquisa “Anima”: Lazer, Animação Cultural e Estudos Culturais.

Prof. Dr. Victor Andrade de Melo
Coordenador
Rio de Janeiro - Novembro de 2004