ANIMANDO – ano 1, número 3 – mai./jun.2007

Boletim Bimestral do Grupo de Pesquisa “Anima”: Lazer, Animação Cultural e Estudos Culturais/UFRJ

ISSN: 1981-3961

O LAZER E A ANIMAÇÃO CULTURAL POR AÍ!

Debatendo o Lazer e a Animação (eventos científicos)

* XXIV Simpósio Nacional de História
Data: 15 e 20 de julho de 2007
Local: Unisinos, São Leopoldo, Rio Grande do Sul
Maiores informações em: www.anpuh.org/

* 3o Congreso de Animación Sociocultural
Data: 20 a 23 de julho de 2007
Local: Montevideo/Uruguai
Maiores informações em: www.lazer.eefd.ufrj.br

* 3ème congrès international « animation socioculturelle » 2007
26 a 28 de setembro de 2007
Lucerna/Suiça
Maiores informações em: www.communitydevelopment2007.ch

* XIX Encontro Nacional de Recreação e Lazer (Enarel)
Tema: Recreação, esporte e lazer – espaço, tempo e atitude
15 a 18 de novembro de 2007
Centro de Convenções da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

Maiores informações em: www.enarel2007.com.br

Escrevendo sobre o Lazer e a Animação (livros e periódicos)

* Livro
LOPES, Marcelino de Sousa, PERERA, José Dantas Lima, VIEITES, Manuel Francisco (org.). Animação, artes e Terapias. Lisboa: Intervenção, 2007.

* Periódico
Quaderns d’Animació i Educació Social. A revista está disponível em: quadernsanimacio.net

* Periódico
A revista “Licere” continua recebendo artigos em fluxo contínuo.
Maiores informações em: www.eeffto.ufmg.br
Segue abaixo o sumário da última edição.

Licere
volume 10 – número 1 – abril de 2007

Artigos Originais

Lazer, Meio Ambiente e Turismo: Reflexões sobre a Busca pela Aventura
Alcyane Marinho

Arte e Vida: O Balão Junino como Forma de Lazer
Carlos Augusto Santana Pereira , Edson de Moraes Neto

Lazer e Mídia no Cotidiano das Culturas Juvenis
Cássia Hack , Giovani De Lorenzi Pires

Lazer Fora de Casa: O Cinema como Equipamento Mágico do Urbano
Débora de Paula Falco

Rompendo Fronteiras: Lazer, Teatro e Espaço Público
Michelle Nascimento Cabral

Arte, História, Turismo e Lazer nos Cemitérios da Cidade de São Paulo
Samira Adel Osman , Olívia Cristina Ferreira Ribeiro

Crianças nos Sinais: Um Olhar sobre o Trabalho Infantil e as Possibilidades e Impossibilidades de Vivências do Lazer nas Ruas de Belo Horizonte
Túlio Campos , José Alfredo Oliveira Debortoli

Tome Ciência!

Empresa e Lazer: Um Olhar sobre Grandes Organizações da Região Metropolitana de Belo Horizonte
Eduardo Penna de Sá

* Periódico
Já foi lançado o segundo número de “Animador Sociocultural: revista iberoamericana”. A revista está também já recebendo contribuições para seu próximo número, a ser lançado em outubro. Maiores informações em: www.lazer.eefd.ufrj.br.
Segue abaixo o índice da última edição:

Animador Sociocultural: revista iberoamericana

Ano 1 – Número 2 – Mai2007/Set2007

Artigos
Algumas aproximações entre lazer e sociedade
Nelson Carvalho Marcellino

La animación sociocultural en Cuba: retos y perspectivas
Alexis M. Góngora Trujillo , Eloy Labrada Santos , Katia Columbié Suárez

Teatro e animação sociocultural: parceiros inequívocos em estratégias de participação social e de desenvolvimento cultural
Avelino Bento

¿De qué hablamos cuando hablamos de animación sociocultural?
Víctor J. Ventosa Pérez

Saúde mental e lazer: reflexões a partir de uma experiência
Michèle Borges De Aquino , Maria Tavares Cavalcanti , Victor Andrade de Melo

Venezuela: propuesta de sistema nacional bolivariano de actividad lúdica, educación física, deporte y recreación
Eloy Altuve

Lazer como obra de arte e a autoformação humanescente do animador sociocultural
Katia Brandão Cavalcanti

90 / 60 / 90
Una pasarela del cuerpo por la historia
Dario Nicolás Navarro , Gustavo Rolando Coppola

Os desafios que se colocam à animação sociocultural. Uma visão a partir da região autónoma da Madeira.
Albino Luís Nunes Viveiros

Experiências
Uma proposta de educação para e pelo lazer destinada às pessoas com deficiência na cidade do Rio de Janeiro
Bianca de Castro Vieira

Área educativa: una propuesta de trabajo social desde la animación juvenil
Fabián Vilas

Resenhas Ventosa, Victor. Fuentes de la animación sociocultural en europa.
Madrid: Editorial CCS, 2002.
Por Cleber Augusto Gonçalves Dias

Investigando o Lazer e a Animação (grupos de pesquisa)

* Laboratório de Lazer e Espaços de Turismo (LabLet)/UFRJ
Coordenado pela Profa. Dra. Angela Moreira, está sediado na Faculdade de Arquitetura da UFRJ. Maiores informações em: www.fau.ufrj.br

Mais Lazer, Mais Animação (notícias em geral)

* Página da World Recreation Leisure Association (WRLA)
A WRLA esta disponível em: www.worldleisure.org


OLHA O ANIMA AÍ

* Mapeamento do Patrimônio Imaterial no Entorno do Parque Nacional da Tijuca
Linha de Pesquisa: Lazer e Cidade

Prof. Bruno Morais – bmorais13@yahoo.com.br
O presente projeto pretende, através da seleção e documentação de manifestações compreendidas na categoria de bens intangíveis, ressaltar a importância do patrimônio natural no fazer cultural das comunidades do entorno do Parque Nacional da Tijuca, contribuindo para a criação de um instrumento de atuação no âmbito da Educação Ambiental e da Animação Cultural.

* Me divirto dançando: uma etnografia dos espaços populares de dança na cidade do Rio de Janeiro
Linha de Pesquisa: Lazer e Cidade
Profa. Ms. Maria Inês Galvão Souza – inesgalvao@oi.com.br
O projeto objetiva realizar uma pesquisa etnográfica de espaços populares de dança na cidade do Rio de Janeiro, buscando desvendar os códigos, símbolos e lógicas de organização dos locais estudados, bem como os sentidos e significados que permeiam a prática dos atores sociais freqüentadores. Seus objetivos específicos são: a) investigar e descrever a lógica de organização dos espaços populares de dança, compreendidos enquanto possibilidades de lazer da cidade; como se organizam as atividades no âmbito dos espaços estudados, isso é, como se organiza a dinâmica do cenário?; b) investigar e delinear um perfil dos atores sociais freqüentadores dos espaços. Quem são? Quais suas motivações? Há diferentes públicos? Quais os códigos?


DICAS ANIMADAS

Tabacaria Africana (Fumo etc./Turismo)
Em tempos em que o fumo vem sendo combatido, um ótimo local para dar suas baforadas à vontade fica localizado no largo do Paço, número 38, no Centro da cidade do Rio de Janeiro. Adeptos do cigarro, charuto, cachimbo, narguilé entre outros que possuem em comum o prazer pelo fumo, encontrarão na Tabacaria Africana, além de um ambiente agradável, diversos acessórios, cigarrilhas, charutos e até mesmo uma variedade de fumos a granel. Na verdade, a Tabacaria Africana é um dos patrimônios que fazem parte da história do cotidiano da cidade. Fundada em 1846, é o mais antigo estabelecimento comercial ainda em funcionamento no Rio. Rodeada por aquelas que já foram as principais instituições políticas, econômicas e sociais do país, a Tabacaria Africana presenciou, certamente em meio a muita fumaça, as mudanças na vida e na dinâmica social da cidade. Afinal, poucas são as casas comerciais que tiveram, ao longo de 161 anos de história, Dom Pedro II, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek entre seus clientes. Sugestões: Se você se considera um principiante no mundo do fumo, peça auxílio aos atendentes. Atenciosos e qualificados, eles terão prazer em explicar as principais diferenças entre os diversos artigos da loja. Há fumo para todos os gostos e estilos. Outra dica: sozinho ou acompanhado a Tabacaria Africana é um ótimo lugar para – além de fumar – tomar um ótimo café. Informações sobre a história e tipos de fumo e a arte de fumar poderão ser encontradas na página da própria Tabacaria Africana (http://www.tabacariaafricana.com/), da Cigar Reviews (http://www.cigars-review.org/), na seção Connoisseurs da página da Altadis (http://www.altadisusa.com/connoisseur/) e na revista Cigar Aficionado (http://www.cigaraficionado.com/).

Overmundo (Internet)
Já ouviu falar na Usina de Arte em Rio Branco (AC)? Ou no Cine Volante de João Pessoa (PB)? E na I Mostra Pernambucana de Clipes (PE)? Esses são alguns dos muitos exemplos presentes no Overmundo. O objetivo principal do website é divulgar produções culturais brasileiras, em especial, aquelas que estão longe do grande circuito. Basta acessar http://www.overmundo.com.br/ para encontrar uma infinidade de manifestações e ações culturais de todos os recantos do país. O site – que conta com o patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Cultural e dos mecanismos de incentivo fiscal do Programa Nacional de Apoio à Cultura / Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), do Ministério da Cultura – está dividido em quatro seções principais: Agenda (na qual você encontra o que de legal está acontecendo), Overblog (onde você encontra reportagens, ensaios, críticas); Guia (com indicações de pontos turísticos, passeios, discos, livros, sites, bandas entre outras coisas), e Banco de Cultura (com disponibilização de filmes, músicas, teses, fotografias etc.). E mais: tudo funciona de maneira independente e colaborativa. Se você optar por, não apenas acessar o conteúdo do Overmundo, basta se cadastrar e logo em seguida você já pode começar a ajudar na “construção” do site: seja disponibilizando suas próprias músicas, fotos, filmes etc., seja escrevendo ensaios, divulgando eventos e festas ou simplesmente votando e escrevendo críticas a respeito das contribuições de outros participantes. Como o próprio site se autodenomina, o Overmundo é “um coletivo virtual”. Sugestões: visite também o Overmixer (http://www.overmundo.com.br/overmixter/). Lá você poderá encontrar músicas, samples e remixes, permitindo que você ouça e crie novas músicas, samples e remixes.

AccuRadio – The next generation of radio (Música/Internet)
O que poderia parecer uma simples rádio pela Internet é na verdade um multicanal que abrange uma variedade de gêneros musicais. São centenas de canais e sub-canais que você pode escolher para ouvir uma boa música (de graça). A AccuRadio (http://www.accuradio.com/) está divida em 12 grandes gêneros musicais (Rock, Pop, Jazz, Classical, Oldies, Country, Urban, Latin, Standards, Broadway, Celtic e More), cada um com diversos subgêneros musicais, alguns organizados de maneiras variadas. Por exemplo, no canal Classical, você poderá optar pela classificação por Compositores, por Intérpretes, por Épocas ou movimentos, por Instrumentos, por Orquestras etc., podendo inclusive, ser utilizada de maneira didática (ao estimular a percepção de nuances entre períodos, compositores, instrumentos etc.). Logo após a escolha, o AccuRadio tocará aleatoriamente as músicas a partir dos critérios escolhidos, apresentando uma janela que, além de possibilitar outros critérios de escolha (como a exclusão de alguns intérpretes, por exemplo), apresentará diversas informações sobre cada música tocada (como título, artista, álbum, compositor e ano de gravação). Talvez a AccuRadio seja mesmo um dos futuros possíveis da mídia rádio. Sugestões: Antes de optar logo pelo canal de maior afinidade, visite o máximo de canais possíveis. Você se surpreenderá. A boa música existe em diversos gêneros musicais. Afinal, se admitirmos que Nietzsche (1844-1900) estava certo ao afirmar que “Sem a música, a vida seria um erro”, quanto mais plural for a música, melhor.


LAZER? ANIMAÇÃO? …QUE BICHO É ESSE?

Esse espaço é reservado para a publicação de artigos, pequenos textos e/ou entrevistas que contribuam para a discussão sobre o lazer e a animação cultural.

Nesse número, publicamos um artigo da Profa. Monica Borges Monteiro, que recentemente defendeu sua dissertação de mestrado.

“A animação cultural e o lazer em suas aproximações com o pensamento de Paulo Freire?”

Profª Ms. Monica Borges Monteiro

O conceito de animação cultural (AC) apresenta distintos interesses e pontos de vistas ideológicos e sociais que se entrecruzam. Por isso não podemos considerar que os fundamentos da AC sejam neutros, eles contêm distintos conceitos e ideologias de fontes diversas.

O conceito de AC é bastante complexo, cercado de imprecisões, que se manifestam em uma indeterminação epistemológica, que gera um grande esforço para delimitação de um campo de ação, funções e competências. Apresentamos uma construção conceitual sobre a animação cultural, pontuando as aproximações com o pensamento de Paulo Freire.

Segundo Martin (1999), na definição conceitual de AC aborda que nos últimos anos houve uma evolução progressiva na práxis, ou seja, confiança na prática que busca harmonia e reflexão das ações. Segundo a autora, a ambigüidade epistemológica e conceitual da AC coincide, em linhas gerais, com a época em que foi criada (quando havia numerosas práticas sociais nas classes populares e constante reflexão ao rigor científico da academia). Por isso, não podemos falar de um conceito preciso e restrito sobre a AC.

As explicações sobre esta ambigüidade e imprecisões são numerosas: a) a amplitude e a diversidade de práticas que são atribuídas à AC; b) a resistência de ser aprisionada entre os limites de uma definição; c) a necessidade de fundamentação científica e técnica; d) a maior localização em determinados modelos culturais, sociais e ideológicos; e) a delimitação das funções e competências dos profissionais que atuam; f) a concretude do campo de atuação. Por tanto, as preocupações iniciais com as precisões conceituais da AC passam pelo esforço de definir diversas categorias, uma delas é o perfil e as competências do profissional da área.

Na analise da etimologia da palavra podemos observar as origens gregas e latinas. A idéia de animus=anima=alma, faz referência a trocas, ajuda e crescimento. Ou seja, ações que impliquem em movimento, impulso, motivação, comunicação e transformação; que representem uma vertente inovadora, incitadora, conscientizadora, mediadora, catalizadora e negociadora das questões coletivas. Anima implica em dar a vida, alimento vital, ações e pensamentos e responsabilidade individual e coletiva.

Esta analise etimológica da palavra nos indica que existem duas tendências complementares na utilização AC: infundir e suscitar ânimo. Nesse sentido, impulsionar, motivar, fortalecer, potencializar e coordenar a capacidade da cada indivíduo e grupo, assim como sua participação ativa nas ações sociais, são condições essenciais para os conceitos que regem a AC.

A AC pode ser compreendida sobre três aspectos: a) o desenvolvimento cultural; b) a integração social; e c) a socialização da interpretação cultural. Logo tem uma ação educativa quando desenvolve o diálogo, a ação comunicativa e a solidariedade. Ou seja, é um método dialético de transformação social, podendo participar da fundação de novos modos de pensamento, novas racionalizações, novas perspectivas de utopia e de contribuição para a renovação de princípios organizacionais da sociedade.

Por intermédio do diálogo, a AC pretende atingir o mundo objetivo de quem fala (o mundo social) e o mundo subjetivo (próprio do sujeito). Agora encontramos uma importante aproximação com a pedagogia de Paulo Freire, o diálogo. Principalmente porque ambas consideram o diálogo como uma exigência existencial, que possibilita a comunicação e permite ultrapassar a problematização do vivido. Ou seja, por intermédio do diálogo e da ação comunicativa, existe a possibilidade que o sujeito analise, no seu contexto, suas experiências em relação às circunstâncias e ao outro, viabilizando ainda a tomada de consciência de seu destino histórico e o (re)surgimento da solidariedade pelo engajamento coletivo.

Para Ventosa (2002), devido ao processo dialético característico da animação sociocultural (com sua afirmação – tese – e suas diferenças – antítese – como estratégia cultural) surge à integração dos enfoques e das atuações (difusão, promoção e gestão cultural) que tradicionalmente são concebidos como separados. Aqui identificamos uma importante aproximação com Freire, a dialética.

Melo (2006), ao propor um campo acadêmico relacionado à AC no Brasil, defende que seus interessados podem usar os espaços abertos no campo de estudos do lazer, isso porque há uma tradição histórica que os une.

Melo & Drummond (2003) defendem que os momentos de lazer não podem ser compreendidos como espaço de fuga ou alienação, desconectados da realidade social, o que não significa desconsiderar o prazer, dimensão fundamental na definição de lazer. Consideram que a atuação no âmbito do lazer pode contribuir diretamente para o questionamento da ordem social, bem como promover uma dimensão de grande importância na qualidade de vida individual e coletiva.

Ou seja, o educador que trabalha no âmbito do lazer, atua diretamente ligado ao campo cultural, aproveitando o potencial de intervenção na ordem social. Por isso, entre as possibilidades que contribuem no processo de intervenção educacional, estão: a) a busca de novos pontos de vista para a realidade social; b) a recuperação de bens culturais destruídos pela ação da industria cultural; c) equilíbrio entre consumo e participação dos momentos de lazer; e d) a participação ativa nos processos sociais (seres históricos).

Partindo dessa reflexão, podemos dizer que a AC, ao se apropriar do campo dos estudos do lazer, adota em seu escopo teórico um duplo aspecto educativo: a educação pelo lazer e a educação para o lazer.

“Educar pelo lazer significa aproveitar o potencial das atividades para trabalhar valores, condutas e comportamentos” (MELO & DRUMMOND, 2003, p. 53)

“Educar pelo lazer é a outra dimensão, aliás da maior importância, do processo de intervenção pedagógica no âmbito do lazer. Falamos que a atuação do profissional do lazer se desenvolve no campo da cultura” (op.cit. p. 54)

Nesta dupla dimensão do lazer os autores propõem construir um espaço em que, a partir de uma problematização, seja permitida aos indivíduos a reelaboração de seus olhares acerca da realidade. Nesse sentido o educador deve procurar direcionar o processo de intervenção pedagógica ao questionamento da sua forma de ação, com base na apresentação de outras possibilidades e no desenvolvimento de perspectivas críticas. Aqui encontramos outra aproximação com o pensamento de Paulo Freire, a problematização.

A AC no Brasil não é uma metodologia sistematizada, onde se encontram respostas para todos os males do mundo, ela se encontra nas diversas experiências produzidas em toda a América Latina, onde, através dos diferentes âmbitos e com a realização de programas que responderam a diagnósticos previamente elaborados e participados, constitui-se diferentes método que levaram as pessoas a se autodesenvolverem e, conseqüentemente, reforçarem os laços grupais e comunitários.

A AC aborda conceitos afins, que se relacionam com áreas diferentes, que se complementam, com as quais tem uma afinidade e ainda com as áreas nas quais ocupa uma função central; caracterizando sua interdisciplinaridade. Estas relações constituem um fator vital, na hora de intervir.

Para Melo (2001), a AC é um processo de intervenção pedagógica que tem a cultura como sua preocupação e estratégia central, o cerne de sua atuação (anima=alma). Compreende que a intervenção no âmbito da cultura significa levar em conta os valores e as sensibilidades, em uma permanente articulação entre ética e estética:

“… determinadas percepções, sensibilidades podem se ajustar ou contestar um determinado conjunto de valores, mas muito dificilmente poderão prescindir deste. Ao observarmos de forma mais complexa e dinâmica tal articulação, devemos até mesmo dizer que as sensibilidades simultaneamente expressam e contestam conjuntos de valores, da mesma forma que os valores se ajustam e contestam determinadas percepções” (Melo, 2002, p. 2)

Assim sendo, um processo de educação estética, de educação das sensibilidades, pode permitir o desenvolvimento do ato de julgar e criticar a partir do estabelecimento de novos olhares (tolerantes e multi-referenciais) acerca da vida e da realidade. Ou seja a educação estética pode transformar a existência cotidiana, injetando nela um princípio fundamental de liberdade e de escolha.

A educação pela sensibilidade proposta por Melo nos mostra outra aproximação da AC com a Pedagogia de Paulo Freire, a humanização. Pois ambas acreditam que a educação pode resgatar a condição humana, atuando contra os efeitos da opressão e contribuindo para busca da superação da opressão entre os seres humanos.

O dialogo[1], a dialética[2], a problematização[3] e a humanização[4] (através da sensibilidade) foram as características de aproximação da AC com a pedagogia de Paulo Freire que selecionamos como mais significativa. No entanto, este diálogo cotidianamente revela muitas aproximações como: o aprender fazendo, o trabalho cooperativo, a relação entre teoria e prática, a estética, a ética, entre outras.

Acreditamos que no momento onde as possibilidades de trabalho são limitadas e o acesso ao lazer restrito a grupos mais favorecidos economicamente, as vivências no âmbito do lazer trazem condições para o desenvolvimento da palavra geradora[5] baseados das vivências concretas do grupo. Assim, o lazer traz para a atualidade do pensamento de Paulo Freire a possibilidade de desencadear o processo educacional.

Referências Bibliográficas
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, 13ª edição.
_______, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra, 1987. 19ª edição.
_______, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 15. ed. São Paulo : Paz e Terra, 2000, 14ª edição.
GADOTTI, Moacir. História das idéias pedagógicas. São Paulo: Ática, 2004, 8ª edição.
_________, Moacir. PAULO FREIRE: Uma biobibliografia. São Paulo: Cortez, 1996.
GILLET, Jean-Calude. Anotações sobre a teoria da animação. Disponível em http://www.colloquecs-isiat.fr.st/. Acesso em: 31 de janeiro de 2007
MARTÍN, Maria Teresa (org). Gênesis y sentidos atual de la Animación Sociocultural. Espanha/Madri: Editora Sanz y Torres, 1999.
MELO, Victor Andrade de. Educação estética e animação cultural. Belo Horizonte: Licere, 2003, nº 5, p. 101- 112.
________, Victor Andrade de; ALVES JUNIOR, Edmundo de Drummond. Uma introdução aos estudos do lazer. São Paulo: Manole, 2003.
________, Victor Andrade de. A animação cultural, os estudos do lazer e o estudos culturais: diálogos. Belo Horizonte: Licere, 2004, nº 7. p. 86-103.
VENTOSA. Victor. Fuentes de la animación sociocultural em Europa. Espanha: Editora.

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[1] Para Paulo Freire, o Diálogo é o encontro dos homens mediatizados pelo mundo para dar um nome ao mundo.
[2] Para Freire a Dialética é uma concepção filosófica segundo a qual o mundo se encontra em constante mudança. As leis fundamentais da dialética são: tudo se relaciona (princípio da totalidade); tudo se transforma (princípio do movimento); mudanças quantitativas geram mudanças qualitativas; existe o princípio da contradição, que significa a unidade e a luta dos contrários. A contradição é a base da dialética.
[3] Para Freire a Problematização é a ação de refletir continuamente sobre o que se disse, buscando o porquê das coisas, o para que delas. Problematizar é propor a situação como problema. A problematização nasce da consciência que os homens adquirem de si mesmos que sabem pouco a seu próprio respeito. Esse pouco saber faz com que os homens se transformem e se ponham a si mesmos como problemas.
[4] Para Freire a humanização é o caminho pelo qual os homens e as mulheres podem chegar a ser conscientes de si mesmos, de sua forma de atuar e de pensar, quando desenvolvem todas as suas capacidades pensando não somente em si mesmo, mas de acordo com as necessidades dos demais.
[5] A palavra geradora deve constituir para o grupo com que se vai trabalhar, uma palavra muito utilizada dentro da linguagem cotidiana. A condição principal para que uma palavra seja geradora é que esta deve servir para gerar, a partir dela, outras palavras – por isso se chama geradora – com o fim, de se chegar a aprendizagem da leitura e da escrita. Aprendizagem que não pode se separar da leitura (reflexão) e da escrita do que sucede na sociedade em que os estudantes e o professor trabalham diariamente. Em outras palavras, a palavra geradora deve permitir tanto uma leitura e uma escrita lingüística, como uma leitura política.


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“Animando” é um boletim informativo bimestral do
Grupo de Pesquisa “Anima”: Lazer, Animação Cultural e Estudos Culturais/UFRJ
Editores: Victor Melo, Fabio Peres, Mônica Monteiro e Monica Carvalho
Maiores informações sobre o grupo: www.lazer.eefd.ufrj.br
Para contatos ou envio de notícias: victor.a.melo@uol.com.br