A primeira noite de um homem – por Bruno Gawryszewski

A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM
Mike Nichols

Como já de costume, fui assistir a mais uma sessão do Cineclube do Odeon às quartas-feiras. Desta vez, o filme exibido foi “A primeira noite de um homem”.

Trata-se de uma história do recém-formado em Direito, Benjamin Braddock, vivido por Dustin Hoffman, que chega à sua cidade natal, Los Angeles, para rever os pais depois de seus anos acadêmicos. No entanto, ele está completamente perdido quanto ao destino de sua vida e mostra-se um sujeito sem voz ativa perante aos outros e, durante a sua festa de recepção, enquanto todos o congratulam por seu desempenho espetacular na faculdade, ele permanece alheio e indiferente aos seus convidados. Isso fica claro em várias cenas como em sua festa quando um amigo de seu pai, toma-o pelo braço contra sua vontade para falar sobre seu futuro profissional ou quando Benjamin é “obrigado” à levar a esposa do sócio de seu pai em casa, personagem vivida por Anne Bancroft.

A partir desta cena descrita acima, a vida de Benjamin muda. Ele se percebe envolvido em um jogo de sedução por uma mulher mais experiente e, após alguma resistência, cede à tentação de descobrir o sexo com ela.

Desde então, Benjamin oscila sua vida entre a cama e a piscina, piscina que antes era um suplício, agora era local de relaxamento e descontração. Depois de um mês de sexo no Hotel Taft, Benjamin é forçado por seus pais a sair com a filha de seu sócio. Aí, Benjamin descobre o amor.

O filme, rodado em 1967, ou seja, um ano antes da grande revolução contra-cultural no mundo, já aponta que os anos seguintes seriam turbulentos. Longe de ser um filme panfletário, ascensor das massas contra o capital, Nichols aposta na revolução de um indíviduo consigo mesmo mas que acaba dialogando com aquele momento da História. Benjamin, aparentemente um jovem alienado e à margem das agitações da época, após se desapontar com o universo acadêmico (e tudo mais) onde segundo ele “as regras estão postas e executadas por pessoas e da maneira errada”, ao descobrir o amor, passa de um sujeito passivo e inaudível, a ser guiado pela emoção e confiança, necessário àqueles que desejam mudar o mundo.

Outra relação de que os tempos estavam mudando foi a conversa de Benjamin com sua amante. A personagem de Anne Bancroft, mãe de seu futuro amor, conta que foi obrigada a casar-se com seu marido por causa da gravidez indesejada e demonstra um profundo rancor da existência da filha, deixando transparecer que não tinha opções de escolher o rumo de sua vida na juventude. Já sua filha, ao fugir da cerimônia de seu casamento para ficar com Benjamin, é repreendida pela mãe que lhe diz “Acabou, você não tem outra escolha! Tem de se casar com fulano de tal!”. E ela responde, para depois fugir de vez: “A vida não acabou. Não para mim!”

Um filme com uma excepcional trilha sonora de Simon e Garfunkel, que, aponta mudanças que viriam a acontecer nos próximos anos e deixou-me uma mensagem de procurarmos a constituição de sujeitos fortes, que se constituam de emoção, prazer e contradições, vivendo o tal “hedonismo responsável”.

Por Bruno Gawryszewski, 03.02.04